O evento ''O Recado dos Livros'', lançado na última sexta-feira na Biblioteca Pública de Londrina, deixou mesmo o seu recado: a literatura pode proporcionar, além de idéias e cultura, conversas que nos remetem a lembranças quase adormecidas. Na ocasião, foi lançada a biografia ''A Paixão de João Antônio'', escrita pelo jornalista Mylton Severiano - hoje editor da revista ''Almanaque de Cultura Popular'' - que viveu algum tempo em Londrina, nos anos 70, quando trabalhou no lendário jornal Panorama. O jornal, de vida meteórica, teve como repórter ninguém menos que o próprio João Antônio (1937-1996), que conheceu muito bem a cidade, transitando do coração da avenida Paraná até suas vilas, de onde tirou belíssimas reportagens.
No lançamento do livro, Severiano conversou com o público resgatando histórias de João Antônio, de quem foi amigo pessoal e com quem trocou cerca de 500 cartas. Algumas delas serviram de referência à biografia, publicada pela editora Casa Amarela, enfocando de forma muito íntima as alegrias, as raivas e as mágoas de João.
Quem também participou do evento foi Rodrigo Lacerda, escritor e editor que resgatou a literatura de João Antônio, relançando livros que já estavam fora de catálogo. Lacerda defendeu tese de mestrado na USP sobre a obra do autor paulistano, sendo um grande conhecedor da linguagem deliciosa de 'Malagueta, Perus e Bacanaço' e outras obras, inseridas entre as coisas imperdíveis da literatura brasileira contemporânea. Ele trouxe toda esta bagagem para a palestra que deu em Londrina, alimentando a platéia com informações que são um capítulo à parte na história de João Antônio. No resgate que fez da sua obra, para um público de cerca de 70 pessoas, Lacerda enfatizou pontos curiosos que mostram como um autodidata pode mesclar vida e literatura. O escritor - segundo ele - fazia entregas de mercadorias para o pai que foi dono de armazém em São Paulo. Desta experiência - mixada mais tarde com suas incursões boêmias - nasceu o profundo conhecimento que ele tinha dos tipos humanos, dos personagens de rua, dando preferência aos marginalizados, aos malandros e às prostitutas. Mas Lacerda mostrou também que a escrita de João Antônio não se limita a isso. A influência de autores mais complexos, como Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, lhe deram a ''pegada'' literária que redunda numa linguagem polida, que chega à perfeição, como é natural num ser obcecado por palavras.
Numa homenagem comovente, Rodrigo Lacerda leu textos de João Antônio nos quais ele fala de Londrina, contando como se sentia, por exemplo, com as barras das calças impregnadas da inconfundível e teimosa poeira vermelha. Através de seus sentidos de repórter, enalteceu também a energia de Londrina chegando a declarar que ia embora desta cidade, ''antes que ficasse aqui de vez''.
Além do lançamento do livro de Mylton Severiano e das palestras, ''O Recado dos Livros'' - organizado pela produtora cultural Cláudia Silva, com apoio do Promic - deixa na Biblioteca Pública uma exposição das grandes reportagens feitas em Londrina, por João Antônio, para o jornal Panorama. Entre elas um perfil inesquecível do fundador e presidente da Folha de Londrina, João Milanez.
O evento deve voltar à cena, ao longo do ano, abordando a obra de outros autores através de lançamentos e novos debates. Uma idéia vigorosa que pode devolver à cidade a oportunidade de ter ''discussões sofisticadas'', como lembrou o jornalista Bernardo Pellegrini na noite dedicada a João Antônio.
Quem compareceu ao primeiro debate, só pode desejar vida longa aos bate-papos de cultura viva.

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