São dois espetáculos distintos. Tanto na proposta como na estética, mas não há como não traçar um paralelo. De um lado, a grandiosidade de ''Oceano'', do Grupo Roda Brasil, que usa e até abusa de efeitos cênicos. Do outro, ''A Cabra ou Quem é Sylvia?'', que ignora a maior parte dos recursos do teatro para dar voz aos nomes que estão sobre e atrás do palco: José Wilker no elenco e Jô Soares na direção. Mas os atores anônimos de ''Oceano'' conseguem mais resultado. Enquanto ''A Cabra'' tenta segurar o espectador pelo texto e pseudo-atuação, ''Oceano'' cativa a plateia pela realidade e plasticidade.
Em ''Oceano'', o Grupo Roda Brasil, formado pela união dos grupos Parlapatões e Pia Fraus, lança mão de uma história lúdica e com argumento aparentemente simples para mostrar as técnicas circenses aprimoradas pelas duas companhias ao longo dos anos. A peça foi montada na Ópera de Arame, terreno fértil para este (e só para este) tipo de montagem. Para contar a história de um menino que perde seu patinho de borracha em uma banheira e é transportado para o mundo mágico do oceano, o espetáculo utiliza músicas executadas ao vivo, balões gigantes, patinadores, malabaristas, equilistras e até jumpers, espécie de perna-de-pau que ajuda os atores a dar saltos e mortais impressionantes.
Enfim, é um circo na melhor definição da palavra, mas sem abandonar a linguagem teatral. Porque o teatro também pede os recursos que lhe são próprios. Caso contrário um vídeo seria mais adequado. E é exatamente essa a impressão - a de estar assistindo a uma telenovela - que o espetáculo ''A Cabra'' transmite. Com texto do americano Edward Albee, um dos maiores nomes do teatro, o espetáculo estreou no festival com mais de meia hora de atraso e encerrou sua participação ontem.
Para resumir, ''A Cabra'' aborda temas como a traição, o casamento e a falsidade - ''tudo se resume naquilo que a gente pode fazer sem ser descoberto'' , diz o protagonista em determinado momento. A atuação de José Wilker não deixa em nada a desejar ao que ele fez ao longo da carreira na televisão e no cinema. Mas ao vivo, a encenação soa mais do que falsa. A plateia ri de um texto recheado de ironias e referências às maledicências da vida. Wilker contracena com Denise Del Vecchio, Francarlos Reis e Gustavo Machado, que interpreta o filho do casal e acaba ganhando a cena. Os outros parecem acreditar que não precisam mais convencer o espectador. As suas respectivas carreiras chegaram antes e já o fizeram.

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