Curitiba - O público vai entrando e, enquanto procura um lugar para sentar, passa por um casal que dança lentamente, ignorando a batida mais rápida; e por outro, mais agitado e um tanto nervoso. Esse é o início da peça ''Línguas Estranhas'', apresentada duas vezes no último final de semana, no Festival de Teatro de Curitiba.
Tudo leva a crer, no primeiro ato, que trata-se de um drama conjugal com toque de humor. Leon e Jane acabam caindo na tentação de trair seus parceiros, Pete e Sonja, que, coincidentemente, também pensam na infidelidade mas acabam não consumando o ato físico por falta de coragem. A interpretação correta e precisa, com troca de diálogos simultânea e constante, imprime uma narrativa veloz.
A partir daí, as discussões sobre as consequências da traição - ou da possibilidade dela acontecer - fazem com que os personagens revelem um pouco mais sobre si mesmos e alguns detalhes de tramas paralelas. Como o vizinho de Jane (a atriz global Julia Carrera), suspeito de assassinato, ou do transeunte que sente falta de um amor perdido.
Assim, meio nonsense, a peça vai se dividindo em duas partes, ficando um pouco mais cadenciada, especialmente a partir do desaparecimento da psicanalista Valerie. O então tom de humor que ainda permeava o meio da montagem vai dando lugar a um clima misterioso, mais sombrio e escuro. Todos os personagens vão narrando histórias que compõem uma trama elaborada e cheia de ligações afetivas e temporais. E assim vai, até o fim, conectando as perguntas e sugerindo respostas.
''Línguas Estranhas'' promete uma análise comportamental sobre os casais e, no final, entrega também uma contemplativa história de mistério, quase um romance policial. Curioso, no mínimo.
Ficha técnica: Línguas Estranhas tem texto de Andrew Bovell e direção de Bruce Gomlevsky e Daniela Pereira de Carvalho. Com Julia Carrera, Otto Júnior, Teresa Fournier e Lucas Gouvea. A montagem é da carioca Carrera Gomlevsky Produções Artísticas.

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