PONTO DE VISTA - Senhor dos versos atemporais
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de janeiro de 2005
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
O tempo, a palavra e suas consequentes reflexões, é o fio condutor do mais recente disco de Alceu Valença. Conceitual, ''Na Embolada do Tempo'' trabalha com o tema de maneira direta e, principalmente, subliminar em versos acessíveis e outros desdobrados de lirismo em que presente, passado e futuro apenas servem de referência para algo inconstestável: o tempo é um senhor de rugas e marcas, e das horas abstratas uma das definições mais simplistas, nem por isso menos provocativa do autor pernambucano. E assim ao ver e sentir valenciano o tempo mostra-se indomável (''Você quer parar o tempo/ E o tempo não tem parada''), impiedoso (''Em maio eu montava um cavalo/ chamado de Ventania/ Lembrei olhando o calendário/ do tempo em que me querias) e poeticamente alquebrado (''A gente segue o tempo e ninguém nota/ Seus caminhos, suas rotas/ Por onde o tempo seguiu/ Depois/ quer viver tudo o que viu/ Vai bater na mesma/ de onde um dia saiu''). Tudo ritmado, batucado, embolado, de modo ajeitado assim, mesmo na velocidade do cordel e dos repentes o conceito explítico por Alceu nas respectivas ''Embolada do Tempo'', ''No Tempo Que Me Querias'' e ''Samba do Tempo''.
No tempo da sutileza, o tempo dilata-se em reminiscências, reverências, de alegria ou melancolia, de amor danado ou amor transcendido crônica, poesia, tudo serve de amparo para as palavras de Alceu Valença. Evocam-se sentimentos de todas as proporções. Como não visualizar o desespero em ''Quando Você Foi Embora'' (''E foi um tal de sofrer, um tal de doer, um tal de chorar/ e foi um tal de sofrer, um tal de correr pra beira do mar/ e eu só na sala deserta com a porta entreaberta/ pra te ver voltar''). É a canção mais tocante do disco, aliás autoral, e que encontra possíveis ecos em ''Na Primeira Manhã'', uma das obras-primas de Alceu Valença, registrada em 1980 quatro anos depois ganharia a versão definitiva de Maria Bethânia.
O tempo finca seu cajado em lugares reais (''Ai de Ti Copacabana'' e ''Carnaval na Marim'') e subjetivos (''Dona de 7 Colinas''). Há um olhar enviezado nos sobressaltos da alma feminina (''Madrugou, raiou o dia/ E ele ainda não voltou/ Faz um ano, um mês, um dia/ e ele ainda não voltou/(...) Helena pensou bobagens/ sentindo as horas passar/ se arrastando pela noite/ colada em seu calcanhar'', trecho de ''Noite Vazia) e as tentações da carne (''Levei um trote/ em plena multidão/ ela me deu um bote/ bem no cangote, me botou no chão''), no frevo rasgado ''Vampira'' (J.Micheles), única canção sem a lavra do autor
Nem só o conceito do disco é trabalhado com esmero. Os versos sim, versos, trata-se de um poeta foram revestidos com recursos eletrônicos e instrumentos acústicos. Resultado, sonoridade atual, original. O estofo de ''Embolada do Tempo'' é moderno, sem maiores disparates. No ponto. Bacana.
Pelo jeito, o tempo agiu favoravelmente a Alceu Valença. Agora mais ainda!


