É preciso vê-la, ouvi-la. Compreendê-la. Hoje é último dia para ver o olhar estrangeiro que o francês Georges Gachot pôs sobre Maria Bethânia no documentário ‘‘Música é Perfume’’, em exibição no Cine Com-Tour/UEL. O filme acaba de ser lançado em DVD pelo selo Quitanda, de propriedade da intérprete – é assim que ela gosta de ser chamada –, mas a imensidão da arte da mítica senhora do canto popular brasileiro cabe melhor na grande tela. Tudo é imenso em Bethânia, não só a voz. É admirável seu jeito teatral, até mesmo quando fala que detesta pôr-do-sol (‘‘essa coisa nem barro, nem tijolo’’) ou quando fala do prazer distinto de cantar no estúdio ou no palco do teatro.
  ‘‘Maria Bethânia – Música é Perfume’’ é um filme sem excessos de adjetivos verbais ou visuais. É sincero. Conhecida pelo jeito arredio às câmeras, Gachot conseguiu deixar Bethânia à vontade e, com isso, humanizar o mito criado em torno dessa hoje senhora de 60 anos, dos quais 41 de carreira que fez o próprio caminho na MPB e, à revelia, construiu uma densa mitologia.
  Gachot traduziu Bethânia bem, mas não totalmente – ela é uma mulher que contém muitas informações. O cineasta mostra o temperamento agridoce e o exigente processo de seus projetos cênicos-musicais – nos estúdios ou bastidores deixa bem claro que é ela quem manda e ponto.
  ‘‘Música é Perfume’’ é conduzido através da fala de Bethânia e intercalado por gente anônima e cenas cotidianas, uma espécie de metáfora visual para uma voz que canta um País ainda possível. No entanto, assim como alguns registros audiovisuais da cantora, a câmera privilegia os closes – como os olhos dessa mulher falam... – em detrimento da performance cênica toda.
  ‘‘Música é Perfume’’ tem narrativa ágil. Algumas histórias narradas pela própria protagonista são deliciosamente poéticas. Como a de Mãe Menininha do Gantois, famosa yalorixá da Bahia, que gostava de ouvi-la cantar ‘‘Olhos nos Olhos’’ e não acreditava ter sido feita por um homem – no caso, Chico Buarque. Que aliás não esconde a satisfação em ver suas músicas ganhando um certo ‘‘mistério’’ na voz de Bethânia.
  Não faltam depoimentos contudentes. O de Dona Canô, matriarca dos Veloso é comovente. ‘‘Não estou junta, mas acompanho permanentemente com minhas orações pra que ela consiga aquilo que merece. Não tem diferença para mim ela ser uma artista que hoje tem nome ou ser uma menina, minha filha’’, diz em determinado trecho.
  Já o irmão Caetano Veloso traça o perfil mais profundo da irmã e sintetiza. ‘‘Ela é uma personalidade muito íntegra’’, diz ele, que bateu o pé e exigiu que a irmã recém-nascida se chamasse Maria Bethânia por causa da canção homônima de Capiba eternizada por Nelson Gonçalves. Dona Canô lembra que seu marido, Zeca, não gostou nada da história por não querer que a filha ‘‘fosse cantada na rua’’. Feito um sorteio com vários nomes – reza a lenda que até um esdrúxulo Merisgueleine foi sugerido – ganhou o nome sugerido por Caetano. Como se escolhesse as palavras com apuro, Gilberto Gil tasca: ‘‘A voz de Bethânia é a fricção, o embate entre o tudo e o nada’’. Então tá!
  No mais, Bethânia vai ganhando o espectador com seu admirável jeito de falar sobre si mesma, de seus ritos pessoais, religiosos (o candomblé, não muito assimilado no filme) e de seu habitat natural, o palco. ‘‘O palco vibra. Se você não tiver o mínimo de intimidade com aquele espaço para mim é um desrespeito’’, afirma.
  De onde saiu o subtítulo do documentário de Georges Gachot? Dela: ‘‘Música é como perfurme, é imediato, é sensorial. Não tem coisa que faça você, em fração de segundos, visualizar, sentir, viver, lembrar, raciocionar sobre um assunto do que uma música, um cheiro, um perfume’’. As cenas finais do filme captam a essência de Bethânia, que comove-se ao ouvir-se cantando ‘‘Melodia Sentimental’’ (Villa-Lobos/ Dora Vasconcellos). Caras e bocas, teatralidade total da grande senhora cantadora e dos sinceros e coerentes gestos. ‘‘Música é Perfume’’ é para emocionar, sobretudo!

SERVIÇO
- ‘‘Maria Bethânia – Música é Perfume’’, documentário de Georges Gachot. Em exibição até hoje no Cine Com-Tour/UEL (veja a programação de cinema na página 2). O DVD é um lançamento do selo Quitanda. Preço sugerido: R$ 49,90. Pode ser adquirido também pelo site www.biscoitofino.com.br

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