PONTO DE VISTA - Reforçando a diversidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de junho de 2007
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
O fio conceitual traçado pelo FILO de 2007 apostou na diversidade de linguagens cênicas, na imagem de patchwork, da colcha de retalhos. Um conceito que abraçou as mais variadas estéticas, capaz de oferecer ao espectador uma visão mais ampla das artes cênicas. Uma idéia que ao longo dos anos, a cada edição do evento, vem se solidificando como característica principal. Muito mais do que a opção de ''gostar'' ou ''não gostar'', é difícil negar que o FILO colocou ao alcance do espectador múltiplas maneiras da arte assumir o desenho teatral.
Se a edição anterior foi marcada pela grande quantidade de monólogos, a de 2007 centrou a atenção em outros dois focos principais. Um envolvendo em espetáculos onde as mais variadas linguagens (teatro, dança, música, cinema, circo, bonecos, etc.) ocupam o mesmo espaço eliminando fronteiras. Outro foco envolvendo montagens pautadas unicamente pelo chamado ''bom e velho teatro'', não aquele restrito ao palco italiano, mas aquele onde a atuação do ator é fundamental.
A atenção dispensada ao teatro infantil foi reforçada. Novidade do ano anterior, o FILO 2007 manteve, pelo segundo ano consecutivo, um espaço específico para as montagens infantis. Algo de extrema importância tanto no sentido puramente lúdico, como no sentido de formação e ampliação de público.
Atrasos devido a problemas técnicos, espetáculo cancelado, filas de espera, espectador mal acomodado e outras coisas. Tudo pode acontecer num evento com as particularidades do FILO. Como aconteceu, mas visivelmente em pequenas dimensões diante da amplitude do todo. Da ansiedade juvenil diante da definição do Cabaré ao rápido esgotamento dos ingressos de alguns espetáculos.
Vale assinalar que alguns espetáculos são concebidos para pequenos públicos. São tratados como conceito estético. Nesse sentido, mesmo a organização ampliando os dias apresentação em relação às edições anteriores, parte do público ficou a ver navios. Isso revela que o volume de público vem crescendo paulatinamente a cada FILO. Algo extremamente bom. E justamente por isso, solicita novas formas de resolução.
Se o público do FILO aumenta a cada ano, o mesmo não pode-se dizer da evolução da qualidade da criação cênica de Londrina. Se a produção local presente na programação de 2007 servir de base para um panorama da produção teatral da cidade, o retrato é um período de vacas magras. Elemento que oferece alimento à tese de que Londrina está deslocando sua lendária energia de ''geradora'' para ''consumidora'' de teatro.
Dos espetáculos da cidade presentes no FILO 2007, basta olhar com frieza para enxergar a ausência do teatro propriamente dito. Passando pela estréia de ''Decalque'' do Ballet de Londrina, pela astral do Santeria, pelos palhaços para crianças de Trilhares e Tokpotok, pelo folclore musical do Relicário e pelo remodelamento do circo da Trupe Tangará, o teatro caiu das costas de apenas três trabalhos. Dois deles, ''Num Quarto Vermelho'' e ''Foi Tarde'', montagens do curso de Artes Cênicas da Universidade Estadual de Londrina, não foram concebidos como espetáculos teatrais, mas academicamente como trabalhos de conclusão de curso que se sustentam apenas no campo teórico. O terceiro, ''Em Busca de Suas Criaturas'', marca apenas os primeiros passos do independente grupo Teatro de Garagem.
O melhor espetáculo do FILO 2007? Cada um tem sua própria resposta entre linguagem, emoção, conteúdo e sentimendo. A sutiliza de ''El Solitario de Pessoa'' Da Cia. Miranda, a magia alucinada de ''Ketzal'' do Derevo, a emoção de ''Pequenos Milagres'' do Galpão, a profundidade de ''Houdini's Suitcase' da Pickled Image, a simplicidade de ''Entre Dilúvios'' de La Chana Teatro, a atitude de ''O Círculo de Giz Caucasiano'' da Cia. do Latão e outras coisas mais.
A melhor surpresa? A vitalidade de ''Adubo ou a Arte de Escoar Pelo Ralo'', o primeiro trabalho do iniciante grupo Tucan de Brasília, merece destaque. Quatro jovens colocando a energia do ator na frente do conceito do espetáculo. Algo em processo de extinção, completamente inverso dos métodos teóricos, onde geralmente a energia é deslocada como suporte latente da atuação. Uma verdadeira anarquia de forças em estado expansivo, onde até mesmo a morte surge como elemento vivo, pulsante. Um trabalho que, sem nenhuma pretensão, relembra ao espectador que teatro também é uma manifestação humana com ''coleones''.


