PONTO DE VISTA - Reflexões sobre a Semana de Arte de Londrina
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 04 de outubro de 2002
Rubens Pileggi Sá<BR>Especial para a Folha 2 
O evento mais importante do calendário oficial de arte contemporânea local trouxe para a cidade uma exposição no Museu de Arte de Londrina, cinco mesas-redondas, vários encontros com artistas, além de cinco cursos/oficinas de arte para a comunidade. Organizado pela Divisão de Artes Plásticas da Casa de Cultura da UEL, em parceria com a Secretaria da Cultura/Museu de Arte e patrocínio da Lei de Incentivo, o evento pode ser analisado sob vários aspectos, como os seus desdobramentos na comunidade universitária, artística e sua contribuição social.
Na proposta deste ano, foi tomado como eixo central de discussão o tema ''Espaços da Arte Políticas e Reflexões'', para pensar o papel institucional no processo de criação, veiculação, patrimônio, preservação e contribuição para o desenvolvimento da arte. Quase um paradoxo, levando-se em conta a falta de museus, organizações e espaços de debate que se tem por aqui.
Depois de uma política cultural arrasadora e clientelista, a cidade vem, aos poucos, se reorganizando, criando fóruns de debates e meios para traçar um caminho onde produção e consumo possam se integrar sem que isso seja da ordem de uma política populista ou elitista, a ponto de não permitir que seus cidadãos fiquem à margem das discussões sobre os destinos da arte e da cultura, não só na Universidade como também no município. Já é um começo.
Em relação à Semana de Arte, foi escolhido o curador Paulo Reis, de Curitiba que participou da equipe curatorial do MAM-Ibirapuera para a mostra Panorama, no ano passado, e do Projetos Rumos Visuais do Itaú para desenvolver o tema e convidar outras pessoas da área curadores, críticos, museólogos, artistas, etc que pudessem falar de suas experiências. Nesses 18 dias intensos para os organizadores e para os que acompanharam de perto a programação, muita coisa deve ter sido apreendida. Mas fica uma incógnita: como se darão os desdobramentos tirados das conclusões obtidas?
Uma delas, e talvez, a primeira, é o significado que a Semana vem imprimir sobre a produção local. Mais, é preciso saber se Londrina tem condições e quer, além de consumir, também produzir sintonizada com as questões que se discutem em eixos como Rio/São Paulo e no exterior. A presença de nomes e figuras oficiais do circuito por aqui, necessariamente, não resulta em questões importantes para o debate na cidade. Por exemplo, a explanação da crítica e curadora paulista Sonia Salzstein que tem em seu currículo, entre outras coisas, a direção da Divisão de Artes Plásticas do Centro Cultural São Paulo (hoje Manabu Mabe) à época da gestão Luiza Erundina foi sobre uma particularidade que, por mais interessante, dizia respeito a São Paulo como ''centro nervoso'' da criação artística no País e à promoção de megaeventos para atração pública desvinculada do contexto onde se aplica. A não ser por comparação com a própria exposição que ficou em cartaz no Museu de Arte de Londrina, intitulada ''São ou Não São Gravuras?'', idealizada e realizada pelo Itaú Cultural, com curadoria de Ricardo Resende isso não se justifica. Afinal, se a comunidade artística londrinense reclamava, com razão, do acervo oficial colocado em exposição pela gestão anterior da Secretaria de Cultura, que diferença faz, simplesmente tirá-lo de lá e importar outros para o seu lugar? Uma vantagem, certamente, é que essa não é uma exposição ''careta''. Isso, de certa forma, causa um choque cultural saudável, uma vez que a ex-galeria do Cine Ouro Verde, pertencente à mesma Divisão de Artes Plásticas da UEL cujos membros organizam o evento da Semana era a única a expor trabalhos não tão convencionais. Mas, até que ponto isso significa mudança de valores ou é apenas uma troca de nomes oficiais por outros? Ou seja, uma vez que tais obras foram criadas em outro contexto cultural e técnico, onde o debate se dá pela idéia de ''centro nervoso'', o que significa trocar uma coisa por outra nos mesmos moldes?
Além disso, tem a questão do envolvimento e do engajamento para um projeto comum. Por exemplo: as aulas do Departamento de Arte da Universidade não foram paralisadas para o acontecimento da Semana. Grande parte dos professores ficou alheia ao acontecimento. Como também os alunos, e a própria organização admite, que não participaram dos debates prévios. As decisões quanto ao encaminhamento da Semana surgiram já formatadas para quem quisesse aderir à idéia.
Mesmo isso não é tão simples assim de ser ''criticado'', pois trata- se de um programa que conta com um planejamento de, pelo menos, um ano de antecedência. E nem sempre todas as pessoas estão interessadas em se envolver em compromissos como o de organizar e pensar um trabalho a longo prazo.
Olhar para trás e apontar os problemas técnicos é tão inútil quanto idealizar algo que só pode ser pensado em seu processo. Mas é melhor assumir as críticas quando se sabe que há, de fato, um engajamento verdadeiro por parte de todos os colaboradores, do que tentar se defender sozinho pelos problemas surgidos ao longo do caminho. Ninguém vai querer saber de queixas posteriores sobre a comida que esfriou, o carro que atrasou, o estresse que bateu. Nem se sentir à vontade como parte de algo cujo crédito não lhe pertence.
Saber como uma oficina de arte, de duração de três dias, sobre intervenção urbana ou performance pode surtir efeito é complicado. Ter uma programação não significa ter um público ou algo mais do que resultados superficiais. Apenas tapa-se uma brecha que deveria ser ocupada pelo ensino acadêmico. Da mesma forma, por que criar mais de uma atividade no mesmo horário e no mesmo dia, dividindo público, como foi o caso de encavalar alguns ''encontros com artistas'', preparação de monitores e workshops?
É preciso também apontar o desinteresse da população quanto ao destino da cultura, porque numa cidade do porte de Londrina não há justificativa para se deixar de ir, ao menos, em uma exposição como essa e depois dizer que a arte não atinge o público. É certa a necessidade de oferecer constantemente programas ao alcance da população, mas se ela não comparece por preguiça ou falta de hábito, estaremos condenados a um debate entre os setores que produzem cultura sobre a elitização ou a popularização da arte, que é inócuo e não diz respeito ao problema central do desenvolvimento cultural. A questão central já que o tema da Semana foi o de refletir e aqui se reflete a Semana é se abrir sem se tornar demagógico, apontar caminhos sem se tornar elitista. E esta é uma grande questão para a cultura na cidade.


