PONTO DE VISTA - 'Quarador' propõe a estética pela estética
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 25 de julho de 2002
Francelino França<br> Reportagem Local 
O espetáculo ''Quarador'', com os atores que integram o Projeto Gesto e Silêncio, entra na última semana de temporada no Teatro Núcleo I. ''Quarador'' é considerado o primeiro resultado do Projeto Gesto e Silêncio. A encenação de tempo diminuto percorre o espinhoso caminho de exploração dos recursos visuais geminados à expressão corporal. A palavra foi destronada na concepção do projeto. Isso já é um desafio ao público, condicionado a encenações digestivas e quadradinhas. O espetáculo passa longe dessa vertente e definitivamente não se sai recompensado da sala de espetáculos.
Num cenário composto basicamente por lençóis imaculados presos em varais contrapondo com a impregnante terra vermelha espalhada no chão quatro atores se valem apenas do gestual para contar uma história atemporal num lugar delimitado. O quarador em questão é um local onde o sol impera e é propício para secar roupas. Daí a permanência das pessoas ser passageira.
Uma mulher de casaco marrom chega nesse ambiente inóspito. Três figuras protegidas por uma máscara neutra impenetrável, quase sem modular expressões e emoções, encaram a fêmea e a desafiam. A sobriedade nos gestos e o olhar altivo a distingue dos demais. A mulher tenta impor convenções, padrões de comportamento frente aos outros três personagens.
Como se quisesse se livrar do mal, no caso, o encardido proveniente da terra vermelha, ela briga e foge. Mas é interpelada. Numa luta de poder, a mulher acaba se destituindo dos gestos sóbrios, do casaco de corte impecável, das convenções tradicionais e dos sentimentos aprisionados. Se entrega, deixando-se integrar à lama vermelha.
Essa é um das infinitas leituras. A dramaturgia de ''Quarador'' está vinculada à leitura pessoal de cada espectador. Isso o insere como co-autor do espetáculo. A relação entre palco-platéia necessariamente se estreita. Essa relação é uma espécie de barômetro que indica como o teatro age sobre um determinado público.
No espetáculo do Núcleo I, o público precisa se posicionar diante da sucessão de gestos, associando sua experiência pessoal à do artista ou então repelir a obra. No caso, do espetáculo do Gesto e Silêncio não aconteceu identificação mas um distanciamento progressivo. Poucas chances surgiram para se embarcar na ilusão e na fantasia do palco.
Num momento em que se busca incessantemente novos dramaturgos a literatura dramatúrgica se esfacelou no caos da pós-modernidade ''Quarador'' se apresenta na contramão dessa busca pela nova palavra, por um novo sentido verbal. Não se valer da palavra requer um amplo poder de comunicação dos atores, que derraparam no enredo frágil construído a partir de situações aleatórias. Os personagens sem vida interior deixam poucos resquícios na memória.
A proposta de ''Quarador'' se restringiu à diretora Adriane Gomes. Os atores parecem estar desconectados com a proposta, próximos da obrigação de se expressarem. Árido, cerebral, ''Quarador'' é um espetáculo sem estofo necessário para ser provocativo. Meio charada, a enigmática encenação gira sobre o demasiado genérico e abstrato.
A trilha sonora de Luciano Zampar nem comenta, nem complementa, muito menos acrescenta algo ao espetáculo, passando tangenciada à proposta. Já a cenografia de Mauro Rodrigues e a iluminação de Camilo Scandolara compõem um dueto afinado. Mas no conjunto, sobressai a estética pela estética.
SERVIÇO:
''Quarador'' Montagem do Projeto Gesto e Silêncio. De hoje até domingo, às 21 horas, no Teatro Núcleo I (Rua Quintino Bocaiúva, 1243), em Londrina. Direção: Adriane Gomes. Elenco: Ana Cristina Pilchowski, Camilo Scandolara, Ed Sombrio e Veronika Kovesdy. Ingressos: R$ 6,00 (estudantes pagam meia). Reservas antecipadas das 14 às 18 horas pelo telefone (43) 344-6125. Patrocínio: Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Caixa Econômica Federal, InterStation, DP7 Escola de Informática, Gaudí Livraria Papelaria, Iluminati Clínica Médica e Terapêutica, La Pension Hostel, Barreto Imóveis. Apoio: Universidade Estadual de Londrina e Monalisa Coiffeuse.


