O concerto de Nelson Freire, anteontem em Londrina, atraiu cerca de 750 pessoas ao Teatro Marista. A convite da Artis Colegium Associação Cultural, ele fez aqui sua única apresentação desta temporada no Brasil, antes de voltar a Paris, onde mora. Freire é mineiro e considerado um dos maiores concertistas do mundo. Foi o único brasileiro incluído pela Philips na série ''Os grandes pianistas do século XX''. Mas não vamos repetir aqui o que já foi dito à exaustão. Melhor falar das impressões que deixa no palco. O piano é uma extensão dele mesmo, que não é dado a performances mirabolantes no teclado, sua intimidade com o instrumento é magicamente natural. Toca com satisfação, perfeição, interpreta com alma. O concerto durou cerca de 1h40, ele foi aplaudidíssimo, repetindo um ritual que deve ser comum em todo mundo, e voltou quatro vezes ao palco.
Toque de mestre: encerrou o concerto com ''Ciranda, Cirandinha'' , executada a seu modo. E que modo! Ganhou de vez a platéia. Depois de ouvir Mozart, Beethoven, Debussy e Schumann, o público voltou à infância, aos melhores sonhos, embalado pela melodia. Freire sabe utilizar o que há de mais singelo na música, ao mesmo tempo em que é muito sofisticado, mas sem afetação. É um artista que não precisa provar nada. Por isso mesmo é genial.
Depois do concerto recebeu fãs no camarim, deu autógrafos. Também deixou sua assinatura na parte interna do piano Steinway, que foi ''batizado'' no concerto. O piano foi adquirido pela Artis Colegium Associação Cultural e é um dos 30 instrumentos do gênero que existem no Brasil.
A última vez em que Nelson Freire tocou na cidade foi nos anos 70, portanto há mais de três décadas. Cometas com um brilho desses são raros, as pessoas que foram ao Teatro Marista tiveram o privilégio de estar na janela. Talvez nunca mais possam testemunhar sua passagem. A arte é feita de momentos únicos, cabe ao público saber dimensionar a importância das coisas no momento exato. Lembro-me do impacto de quando assisti a um show de Piazzola no fim dos anos 80: noite chuvosa, Teatro Ouro Verde lotado e aquele bandoneon invadindo os sentidos. Conjunção de sorte e sensibilidade para identificar a ''passagem'' de um grande talento, como aconteceu agora com Nelson Freire. Isso vale para tudo. Carpe diem.

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