Pelo povo na platéia, já dava para ver que não era um show trivial: Adriana Calcanhotto, Toquinho, Jair Rodrigues, Laura Finochiaro, o produtor Pelão, o crítico Zuza Homem de Melo. Quando Paulinho da Viola está na cidade, é mister pedir bênção ao homem, reza a cartilha. Sozinho com o violão, banquinho e luz no alto da cabeça, Paulinho inicia o show com ''Não Quero Você Assim'', dele mesmo. A banda só entra no final, para fechar, num roteiro milimetricamente ensaiado. A voz é límpida como um cenário de estação de esqui nos Alpes, e o novo teatro que Paulinho inaugura em São Paulo, o Teatro Fecap, auditório-estúdio, ajuda barbaridade.
Mas toda essa perfeição poderia beirar a assepsia, não fosse a desconcertante humildade do artista e a inclusão de um bloco instrumental fantástico no show, que executa uma sucessão de choros com a ajuda de dois convidados especiais, Izaías do Bandolim e seu irmão violonista, Israel, no violão de 7 cordas.
Depois da catarse de ''Nervos de Aço'', de Lupicínio, Paulinho desce com um bloco de inéditas, ''que já forma um disco'', anuncia. O jeito meio sem jeito de explicar a gênese de cada uma dessas músicas é parte do espetáculo. Sobre ''Ela Sabe Quem Eu Sou'', ele diz: ''Parece uma bossa nova. Se ficar parecida com uma bossa, a intenção era essa mesma.''
''Nasci e vivo no Rio, mas em São Paulo tenho amigos, trabalho, parceiros'', diz ele. E canta essas parcerias, como ''Sempre se Pode Sonhar'', com Eduardo Gudin, e ''Talismã'', com Arnaldo Antunes e Marisa Monte.
Antes de ''Talismã'', Paulinho conta como ele e Marisa tramaram contra o ''paulista'' Arnaldo: Paulinho mostrou a ele uma canção e propôs um desafio, dizendo que era um samba ''muito antigo'' e queria que Arnaldo fizesse uma letra. Era novíssimo. Ato contínuo, Arnaldo voltou com uma letra.
Há momentos magistrais no show, e a execução de ''Nós, os Foliões'', de Sidney Miller, é um deles, escorado em flauta e percussão. ''Nosso amor foi lindo/Como um carnaval qualquer.'' Aí, ele canta orgulhosamente o verso errado que Cartola escreveu em ''Fiz Por Você o Que Pude'' (o compositor escreveu ''Jesus me premeia'', em vez de ''Jesus me premia''). Enaltece a memória do compositor gauche Valzinho, rei das harmonias dissonantes.
Teve muito mais: o solo do filho João Rabello, a parceria com Cristóvão Bastos. Mas mais não cabe. Corram, Paulinho da Viola está de volta.

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