‘‘A Boa’’ e ‘‘A Ver Estrelas’’ estão entre os bons espetáculos mostrados no 8º Festival de Teatro de Curitiba, que chega amanhã ao fim.
‘‘A Boa’’ é um trabalho despretensioso que entrou na programação da mostra paralela do FTC - o fringe - encenada pelos atores Ana Kurtner e Milhem Cortaz, com direção de Ivan Feijó. Com iluminação simples, rudimentar até, e um cenário idem, mas funcional - um quadrado tendo uma face de plástico preto, destes dos acampamentos de sem-terra, e o outro com uma forração vermelha imitando tapetes da aristocracia - a peça enceta seu vôo na palavra inteligente e na atuação primorosa.
O gérmen do drama que se estabelece é um tropeço na leitura, no significado, de um gesto. Um morador da rua, uma espécie de pregador, Zaratrusta urbano, discursa o seu delírio contra Deus e o mundo. Apesar de sua condição - ou talvez em função dela - é altivo, inteligente, até superior, com uma conversa que é violenta sedução. Enquanto descansa e reflete no seu castelo da sarjeta, a mulher - a boa - uma grã-fina, dá-se ao trabalho de descer de seu automóvel e deixar uma maçã e uma nota de um real para o ‘‘homeless’’. Quando ela vai saindo com a sensação do dever cumprido o ‘‘beneficiado’’ a pega pelo calcanhar da consciência.
- Você não me dá nada em troca? - pergunta, invertendo os papéis e estabelecendo uma interessantíssima discussão sobre quem é que precisa da ajuda de quem. O espetáculo é agradável aos sentidos e instigante à razão, como só acontece quando, no palco, a distância entre intenção e gesto é mais que divertir.
Já a diversão é exatamente ao que se propõe ‘‘A Ver Estrelas’’, espetáculo infantil marcado com o traço da genialidade que só as crianças sabem inspirar. Com texto e direção de João Falcão - a bola da vez no cenário da dramaturgia brasileira - é uma peça tecnicamente perfeita. O texto é um primor, mágico, surpreendente, instrutivo e engraçado; a luz busca efeitos plásticos de rara beleza; os atores cantam, dançam e se movimentam com uma elasticidade de borracha; também o figurino é de cair o queixo.
O texto consegue viver uma aventura, cantar uma história de solidão com final feliz, instigar o raciocínio e fazer rir. Não o riso vulgar, sequestrado à custa de cabeçadas no palco, mas o riso bom, destilado a partir de idéias, da contradição, de situações inusitadas e atuações inspiradas. A peça mostra como as palavras podem guardar sentidos e intenções diversas, formando um emaranhado que, num jogo divertidíssimo, vai enredando público e personagens em múltiplas interpretações do que seja viver, amar, se emocionar no mundo de fantasia das palavras.Divulgação‘‘A Ver Estrelas’’: entre os bons espetáculos mostrados no festivalJoel Gehlen

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