Dúvida cruel, diante dos necrológios hollywoodianos do último fim de semana. Escrever sobre quem, o sempre divertido, querido e oficialmente subestimado ator Donald O'Connor, ou o talentoso, influente, consagrado e igualmente execrado diretor Elia Kazan? Do primeiro ficam apenas as boas lembranças, entre muitas, aquela inesquecível sequência coreografada em ''Cantando na Chuva'', em que o ator por alguns minutos faz a platéia esquecer toda a técnica de Gene Kelly, sozinho ou em dupla com um parceiro...de pano. ''Gostaria de agradecer à Academia pelo prêmio ao trabalho de toda uma vida, que finalmente receberei algum dia'', disse O'Connor em um maroto comunicado difundido há pouco tempo por sua família, uma referência ao Oscar que nunca conseguiu. Merecia.
Estatuetas e polêmica, por outro lado não faltaram à carreira de Elia Kazan. Foram 20 Oscars, colecionados graças a sete de seus dezenove filmes. Entre eles, dois como melhor diretor, ''A Luz é Para Todos'' (1947) e ''Sindicato de Ladrões'' (1954). Merecidos. E um terceiro, honorário, em 1999, ''por uma extensa, notável e incomparável carreira durante a qual seu trabalho como diretor marcou influência decisiva dessa atividade graças a verdadeiras obras-primas''. Embutida no prêmio, a intenção evidente e somente em parte bem-sucedida de reconciliar o cineasta com a comunidade cinematográfica.
Aqueles que sempre admiraram seu atrevimento e sua coragem para explorar temas controvertidos e remar contra a correnteza, sem se preocupar muito com os riscos que poderia enfrentar, reconhecem nele um dos grandes diretores da história do cinema, autor de títulos inesquecíveis como ''Sindicato de Ladrões'', ''Um Bonde Chamado Desejo'' e ''Vidas Amargas''. Aqueles que seguem atentamente as várias etapas da formação de um ator e tudo o que significa estar sobre um palco ou num set devem se lembrar sempre que Kazan foi quem, a partir da criação do Actor's Studio (1947, com Robert Lewis e Cheryl Crawford), aperfeiçoou um estilo de interpretação principalmente no cinema James Dean, Marlon Brando, Paul Newman e Montgomery Clift, influências duradouras para a geração seguinte, esta de De Niro, Pacino, Hoffman. O ''Método'' , como ficou conhecido, era a intensa preparação do ator a partir do auto-mergulho baseado nas teorias de Stanislavski, isto é, alcançar intenso realismo expressando emoções buscadas na memória afetiva e na utilização de objetos para reencontrar sentimentos passados.
Aqueles que, ao contrário, se detiveram em acontecimentos paralelos à sua carreira artística, nunca vão esquecer o depoimento voluntário que Kazan deu perante o Comitê de Atividades Anti-Americanas do Senador McCarthy que, nos anos 1940 e 1950, ''caçou'' comunistas em todos segmentos da sociedade americana. Naquele momento, primavera de 1952, delatou vários colegas entre outros, o roterista Clifford Odets, a escritora Lillian Heallman, Lee e Paula Strassberg (do Actor's Studio), Joe Bromberg e o ator John Garfield, que morreu de enfarte ao saber que seu nome estava na chamada ''lista negra de Hollywood''. E a partir daquela dia, muitos jamais perdoaram este procedimento. Para alguns, Kazan pode mesmo desistir do tal descanso eterno.
Principalmente porque, ao longo dos anos, o diretor manteve a controvérsia, jamais pronunciando qualquer palavra de arrependimento público. Dois de seus títulos mais famosos, exatamente ''Sindicato de Ladrões'' e ''Viva Zapata'', são de certa forma justificativas de seu ato de delação. O fato é que nem os mais renitentes críticos de seu comportamento torpe durante o macartismo deixarão de reconhecer o legado artístico de Elia Kazan, brilhante, sobretudo, por seu talento para dirigir atores e por sua capacidade talvez nunca igualada para transformar temas incômodos em obras de grande realismo cinematográfico, intensidade dramática e sopro humanista.

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