Qualidade na escolha dos temas em discussão e dos debatedores foi o ponto alto do Londrix 2005 - Festival Literário de Londrina - que teve no fim de semana sua primeira edição, realizada por um grupo de produtores independentes e pelo Promic - Programa Municipal de Incentivo à Cultura.
Fazia tempo que a cidade não abrigava este tipo de evento e foi inevitável a nostalgia na evocação dos movimentos que aconteceram por aqui nos anos 70. Uma referência válida mas que deixa transparecer a falta que faz a confluência de idéias num momento em que as expressões culturais parecem mais fragmentadas e os artistas mais isolados. A impressão é que a cultura sempre funciona melhor em bando, mas esta ausência não corresponde a um fenômeno apenas local, mas nacional.
É certo que, nos últimos anos, houve na cidade uma renovação por conta de uma política pública que leva em conta seus artistas e criadores, mas aquela efervescência, própria dos movimentos espontâneos, precisa ser reeditada para que os auditórios voltem a ficar cheios de gente esperta e ligada em autores e livros.
Os apaixonados, ou mesmo interessados em literatura, que não foram ao Teatro Zaqueu de Melo no fim de semana, perderam muito. Escolhidos a dedo, os temas em discussão estiveram voltados à articulação política da cultura em nível nacional; à diversificação dos meios de divulgação literária incluindo a internet e outras mídias; à conceituação revigorada da poesia marginal; à discussão sobre uma possível ''literatura londrinense'' e, em destaque, um debate sobre os caminhos da Literatura Brasileira Hoje que rendeu um dos melhores momentos do encontro.
Entre os que vieram discutir a poesia marginal, um ícone do movimento deu lição de despojamento. O carioca Chacal, que esteve pela primeira vez em Londrina, preferiu não falar da poesia às margens, mas ensinou que a poesia não está restrita a ''nenhum lugar'', traçando uma visão subjetiva, cósmica e espiritual para a arte de se expressar, evocando o poder da palavra e seu potencial de transformação. Com muito humor e na contramão das academias, propôs também a criação de cursos de ''desqualificação profissional'', espaços onde as pessoas ''aprendam a observar os pássaros, as nuvens ou os camelôs que ganham a vida gritando meia dúzia de palavras.'' O público adorou.
Ainda no debate sobre a poesia às margens, Douglas Diegues veio do Mato Grosso do Sul para pontuar a fusão cultural. Misturando português, espanhol e guarani ele escreve numa linguagem própria e aproveita a influência indígena para criar uma cosmogonia literária que pega o leitor pelos sentidos com ênfase para uma sonoridade mesclada e fronteiriça.
O festival literário trouxe para Londrina uma diversidade de gêneros e autores. Passaram por aqui Daniel Pelizzari, Joca Reiners Terron, Thadeu Wojciechwoski, Claudio Daniel, Ademir Assunção, Horácio Costa, Maria Esther Maciel, entre outros.
Debates informais mas sempre pautados pelo conhecimento da matéria-prima, deixaram um gosto de ''quero mais'' para quem participou de uma experiência que resultou na conclusão de que, apesar de tudo, a literatura brasileira vai bem, obrigado. No País de 180 milhões de habitantes, há uma fatia de cerca de 3 milhões de leitores que compram livros, mas a massa criativa é competente e diversificada. Embora sem a convergência dos movimentos, há grandes autores brasileiros, e, surpreendentemente, sem a ilusão de cativar o grande público. Esforços neste sentido existem, mas os escritores já não se perdem em choradeiras pela escassez de leitores. Num momento de maturidade intelectual sabem que a literatura não ocupa hoje um espaço de consumo de massa e as causas são pra lá de conhecidas numa sociedade que privilegia o entretenimento à cultura. Mudanças devem acontecer dentro de um processo que se acredita social e educacional, mas aos autores cabe a criação.
Num debate muito interessante sobre a Literatura Brasileira Hoje, Maria Esther Maciel - professora da Universidade Federal de Minas Gerais e autora de quatro livros - delineou com clareza a diversidade de tendências que se configuram no País. Falou da apropriação que a literatura contemporânea faz do ''imaginário urbano aliado a um enfoque naturalista ou realista das grandes cidades.'' Neste sentido, temas como a violência e as drogas permeiam os livros. ''Há um realismo explícito - diz - algumas obras têm a feição de documentário ou do noticiário.'' E justifica: ''É o que dá maior visibilidade.'' Lembrou porém, que a linguagem não pode ser negligenciada mesmo quando a matéria-prima literária é o submundo urbano. E disse preferir ''os temas interiores, os infernos particulares, as miudezas, a natureza dos sentidos e dos afetos'', enfatizando em tom de desafabo: ''Já estamos intoxicados de realidade.'' A participação de Maria Esther Maciel abriu janelas também para a compreensão das ''contaminações'' que se processam na literatura: ''Misturam-se poemas, roteiros, ensaios, há uma hibridação de línguas e de linguagens.''
O Londrix 2005 contou ainda com lançamentos de revistas e CDs, shows, oficinas, feira de livros, atividades para crianças e saraus espontâneos confirmando a boa receita de fazer literatura viva. Que o evento tenha outras edições e, mais que isso, no ano que vem atraia os estudantes de Letras, os professores dos cursinhos e das universidades. Quem compareceu, sentiu falta dessa gente que parece gostar de literatura.

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