PONTO DE VISTA - O embate do cotidiano e a beleza de passar anéis
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de junho de 2004
Célia Musilli<br> Reportagem Local 
Há um acento forte de contemporaneidade na coreografia ''Talvez Sonhar'', de Denise Namura e Michael Bugdahn, que o balé Cisne Negro apresentou anteontem à noite em Londrina. O embate entre a realidade e o sonho expressa-se na dança que se contrapõe com cenas de teatro executadas pela companhia considerada entre as melhores do Brasil. Mas não foi este primeiro balé ou embate que tocou o público, embora o viés politizado do grupo, criado em 1978, aproxime a dança da leitura que tantas vezes fazemos do cotidiano, onde os sonhos se perdem como movimentos fugazes. Uma das frases de efeito que pontua a coreografia é ''Ordem e Progresso'', nada mais brasileiro, num contexto equilibrado entre o humor e a ironia. A expressão dos corpos é muitas vezes o desalento com que nos deparamos nos sonhos mal delineados ou fragmentados dos indivíduos e da coletividade. Talvez este excesso de realidade, a capturar a platéia a cada passo ou a cada frase, tenha retirado da dança o invólucro necessário de beleza que se quer ver no palco, território onde artistas e por que não? o público saltam por cima do cotidiano para vislumbrar na arte a complacência necessária para suportar as durezas do mundo. Feita de uma colagem de conceitos da dança moderna, a coreografia ''Talvez Sonhar'' faz cortes bruscos para a linguagem do teatro na intenção de contar uma história. Até por este contraponto contínuo, entre dança e texto, realidade e sonho, o balé parece arrastado demais como os dias compridos ou as noites insones, em que a vida, de alguma forma, se sobrepõe à arte reforçada, no caso , por um profissionalismo de corpos que esboçam competência porém sem magnetizar ou empolgar na primeira parte do espetáculo.
A melhor parte, aquela que fez a platéia decolar de vez da poltrona para espaço cênico, foi reservada à coreografia ''Anéis'', de Dany Bittencourt, com música de Adriana Calcanhoto. Aí sim, o que se vê é a leveza surpreendente do grupo preparado para revelar no corpo a magia do balé em estado de graça. ''Anéis'' tem suingue brasileiro e moderno, ritmo de bossa nova, e é trabalhado de forma que faz a dança transgredir para o lúdico. A coreografia remete à singeleza da infância ao sugerir a brincadeira de ''passar anéis'' acordada na consciência do espectador também através da trilha sonora distribuindo toques metálicos e precisos no decorrer do balé. Alguém perdeu um anel no teatro? Talvez o público o tenha encontrado nos movimentos sutis de dedos, mãos, braços, corpos dos bailarinos que brincam sincronizados. Mas o que sobressai, prende a atenção, é mesmo o vôo do Cisne em movimentos lúdicos que saem da infância para pousar na maturidade dos corpos femininos e masculinos que, na mesma coreografia, resgatam outro jogo: o do relacionamento homem/mulher em expressões coreográficas circulares que incorporam à cena objetos que lembram aros de bicicleta com os quais os bailarinos brincam em momentos plásticos e sensíveis. ''Anéis'' é a brincadeira da infância e também a aliança do casamento, é a relação dos sexos que arrebata num contexto de leveza corpos que se ''anelam'' em 20 minutos fortes de dança/delicadeza.


