Existem espetáculos que pedem para serem apreciados com os olhos da contemplação. Solicitam que o espectador aceite participar da construção de uma noção de tempo. Que aceite um sutil toque no espírito, ou mesmo no ponto mais delicado do inconsciente.
''After Eros'', presente no FILO 2005, se enquadra nesses raros espetáculos da poética da contemplação. A coreógrafa e bailarina japonesa (naturalizada norte-americana) Maureen Fleming faz do corpo um instrumento particular de linguagem, uma tintura para desenhos. Amalgama referências estéticas do oriente e do ocidente para gerar a desconstrução do corpo através da lentidão do movimento.
''After Eros'' reflete a união exata e coordenada entre coreografia, música e iluminação. Elege o corpo puro como forma em eterna mutação, altera a estrutura do corpo como forma fixa. Deixa evidente ele é, por natureza, essencialmente assimétrico. E a simetria é apenas uma interferência do homem no mundo, a materialização de uma idéia, de um ideal cultural de perfeição.
No espetáculo, a superfície ''terra'' e a noção de ''chão'', elementos onde a dança normalmente se sustenta, são sumariamente eliminados. As coreografias acontecem simbolicamente no ar e na água. Colocam o corpo suspenso, no tempo e no espaço, em direção a uma possibilidade de espiritualização.
A confluência entre lentidão e minimalismo - com a música de Phillip Glass - dá origem a uma linguagem particular onde a forma é gerada pelas sombras que a luz desenha. O que dá sentido ao corpo enquanto forma é justamente seu lado noturno. Também revela que movimento produz vento, e vento gera movimento, como num circuito fechado em moto-contínuo.
A estética desenvolvida por Maureen Fleming em ''After Eros'' elege como personagem principal o Tempo. Escancara a idéia de que o corpo não é meramente representação de forma, em repouso ou em movimento. Deixa claro que, acima de tudo, o corpo é uma representação do tempo.
Sugere que nunca conseguimos acompanhar o simples processo de abertura de uma flor. Vemos apenas o botão, antes da revelação, e depois a flor aberta, já revelada. Esquecemos da beleza que ocorre entre uma coisa e outra: o Tempo. Algo semelhante ocorre em relação à vida humana, entre a infância e a velhice.
A contemplação sempre será uma poética do tempo.

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