PONTO DE VISTA - Noite de gala à brasileira
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de julho de 2003
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem local 
Ok, alguns movimentos às vezes resvalavam no lugar-comum. Mas a apresentação do Balé Teatro Castro Alves, de Salvador, na Noite de Gala do 21º festival de Dança de Joinville foi marcada pela provocação. Ao contrário de muitas companhias de dança contemporânea que sempre ''ousam'' em alguma coisa muitas vezes em coisa nenhuma , a trupe baiana levou ao palco do Centreventos Cau Hansen dois espetáculos cênica e tecnicamente bem resolvidos. Envolventes. Originais. E deu no que deu: uma acolhida calorosa do público que compareceu em peso ao Centreventos Cau Hansen mesmo que na Noite de Gala algumas pessoas elegantes por fora comessem pipocas e batatas fritas, tomassem refrigerantes e água mineral durante a apresentação. Vai entender o porquê do pomposo nome de uma das principais noites do evento...
Duas coreografias modernas, mas com linhas distintas. Enquanto ''O Arquivo e a Missão'' foi beber na fonte da cultura popular do norte e nordeste do Brasil, a aguardada ''Pracatum'', com trilha sonora de Carlinhos Brown, usou e abusou da linguagem abstrata. A primeira acabou por ser mais marcante também pelo tempo de duração, 50 minutos, e por fazer o público se olhar no espelho e ver refletida a imagem de um Brasil inspirado, mas esnobado pela elite pensante e, com o perdão do trocadilho, dançante também.
Concebido pelo coreógrafo Cláudio Bernardo, ''O Arquivo e a Missão'' tem como base duas pesquisas etnográficas feitas entre 1928 e 1940: ''A Missão de Pesquisas Folclóricas'' e a outra, ''O Arquivo Luís Corrêa de Azevedo''. No palco, três telões projetando principalmente gente do povo cheia de sentimentos sutis. Bailarinos imprimiam movimentos preciosos, altivos, leves e também cheios de poesia e humor às vezes perverso, muito perverso.
Cenas que mereceram aplausos, que despertam alegria, que abastecem erotismo coletivo (o beijo na boca de dois homens e simulações de atos sexuais estavam perfeitamente encaixadas no contexto), enfim, quadros desenhados com perfeita sintonia não só técnicas dos 16 bailarinos (oito homens e oito mulheres). Tudo ao som de cantorias de domínio público, das ''Bachianas'' de Villa-Lobos e de uma certa Maria Bethânia cantando ''Diamante Verdadeiro'' (Caetano Veloso) eis o Brasil simples, rico e visceral, ao menos musicalmente.
''Pracatum'', o segundo espetáculo, coreografado por Tíndaro Silveira em sintonia fina com a trilha experimental e percussiva de Carlinhos Brown tem também suas riquezas. Subjetivo e por isso mesmo sujeito a várias interpretações, o espetáculo imprime caráter mais formal à performance dos bailarinos. Tons, texturas, timbres, sincronicidade eis um raro momento em que dança e música não conseguem subir ao palco isoladas. ''Pracatum'' parece ser um espetáculo inacabado. Nada disso. O que se viu em cena é uma montagem exata, do tamanho correto, feita sob medida para mostrar toda a versatilidade do corpo do Balé Teatro Castro Alves. Brasileirinho pelo sotaque, mas de língua internacional diria o ministro-compositor Gilberto Gil
Serviço:
O 21º Festival de Dança de Joinville prossegue até dia 27 com mostras competitivas. A atração de hoje da 3º Mostra de Dança Contemporânea é o grupo Desvio, núcleo da matriz da Cia. Quasar, de Goiânia, com o espetáculo ''Desvio'' e ''Mulheres''
O jornalista Antônio Mariano Júnior viajou a Joinville a convite do 21 Festival de Dança


