A expectativa pesava o ambiente. Era como se uma imensa asa estivesse parada no ar. Todos queriam ver ou rever o encontro de dois sagrados monstros da MPB que juntariam as vozes como na áurea década de 60. De repente, um senhor sai do camarim, faz o sinal da cruz, entra no palco e começa a ganhar aplausos e assovios. Era Miltinho que, ao contrário do roteiro inicial, abria o espetáculo ''Na Cadência do Show'', no último sábado, no Recinto José Garcia Molina, em Londrina. O show, que o uniria novamente a Elza Soares, foi promovido pela Teixeira & Holzmann Empreendimentos Imobiliários dentro do projeto Royal Golf In Concert um evento já no ponto de ganhar o carimbo de antológico.
Acompanhado do guitarrista Mirabeau, Miltinho começou a desfiar seu rosário de canções com ''Nossos Momentos'' (Haroldo Barbosa e Luís Reis). Voz ainda potente, humildade a toda prova. ''Eu espero que as músicas do meu repertório seja de vosso agrado'', disse ao público. E dá-lhe samba-canção. Um em especial, que ele pediu para que prestassem atenção: ''Chorar em Colorido'' (Fernando César-Silvio Silva). Uma pepita com refrão belíssimo ''Se for ao seu pedido/ Vou chorar em Colorido/ Meu bem escolha a cor''. Na veia, direto ao coração.
No entanto, estava faltando alguém para multicolorir o espetáculo. Com visual black power, surge Elza Soares com todo o esplendor de diva. Os aplausos foram disparados sem dó nem piedade. ''Com Que Roupa'' (Noel Rosa) foi a ponte musical para que os protagonistas se aproximassem. Miltinho fazia graça, Elza também. Arrancaram risadas quando Miltinho cantou o trecho ''eu hoje ando pulando como sapo/ Pra ver se escapo dessa praga de urubu''. E Elza, no maior bom humor, respondeu com suingue: ''não me chama de urubu que eu não gosto''.
Sai Miltinho, fica Elza em cena. Elza devoradora de cenas, de músicas. Elza do suingue, da dança miudinha, do vozeirão, do funk. Sim, Elza direcionou sua apresentação para o pop. E fez um apresentação maravilhosa, o que não é nenhuma novidade. De sucessos alheios a bela versão de ''Verdade'', o grande sucesso de Zeca Pagodinho passando por canções praticamente desconhecidas a instigante ''Comida e Bebida'' (José Celso Martinez Corrêa e José Miguel Wisnik) até o mais recente sucesso ''Façamos'' (versão de Carlos Rennó para canção de Cole Porter), ela imprimiu sua marca registrada.
Divina, majestosa. Como é que cabem tantas qualidade naquela mulher? Como pode ela ser tão generosa e nobre ao cortar uma canção ao meio para que Miltinho pudesse também brilhar? E foi assim, de supetão que ela começou a puxar ''Feitiço na Vila'' (Noel Rosa Vadico) dando as coodernadas aos músicos ótimos, por sinal. Belo acerto de Elza: dois puderam mostrar que ainda se dialogam perfeitamente bem em cena essa coisa que só tempo ajambra e dá o lustre correto. Quem se não essa senhora que parece cantar com água na garganta para sair do pop, passar pelo samba e mais uma vez mostrar a alma grande e cantar com Miltinho ''La Barca'', num entrosamento mágico?. Um detalhe: Elza estava resfriada, se não falasse ou se o mal-estar físico não denunciasse ninguém deixaria de aplaudi-la mais ou menos. Elza é grande em todos os sentidos. Merece muito mais respeito do que se imagina.
Sai o ''furacão'', volta a calmaria. Elza deixa o palco poderia ficar se quisesse para que Miltinho voltasse às luzes. Mais um ato de generosidade. E com o público já aquecido, Miltinho cantou bonito demais. E encerrou a apresentação com a humildade que só os grandes têm. ''Espero que os senhores sempre me queiram bem''. Nem precisa pedir, Miltinho!

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