Curitiba ''É uma coisa bonita de se ver e que não se pode esquecer''. O comentário de Teresa Salgueiro, vocalista do quinteto português Madredeus, foi específico às faluas do Tejo, embarcações a vela que, em séculos passados, transportavam tripulações pelo famoso rio lusitano. No horizonte, formavam um desenho que, pelo jeito, permanece vivo na memória do líder do grupo, o compositor e violonista clássico Pedro Ayres Magalhães. Mas a referência feita por Teresa às ''Faluas do Tejo'', nome do último álbum dos músicos, poderia se adequar perfeitamente também à nona passagem dos lisboetas por terras brasileiras, encerrada ontem à noite com show no Via Funchal, em São Paulo.
Em Curitiba, a apresentação dos portugueses aconteceu anteontem à noite no palco do Estação Embratel Convention Center. A agenda original da turnê brasileira ''Um Amor Infinito'', entretanto, datava para segunda-feira passada o primeiro show dos Madredeus na capital paranaense um atraso no vôo de Angola para o Brasil, de domingo para segunnda, adiou os planos. A apresentação impecável, por outro lado, compensou a espera e deve ter deixado arrependidos os fãs mais exaltados que foram até o local, na segunda-feira, só para xingar a organização do espaço. Que, aliás, nada tinha a ver com a organização do show.
O show de duas horas teve 15 minutos de intervalo ''para descanso'', mas nem precisava. Pelo menos, não para a platéia. A primeira parte foi permeada de faixas do penúltimo ''Um Amor Infinito'', desconhecidas para boa parte do público, mas delicadas e etéreas como a voz da experiente e jovial Teresa. ''Suave Tristeza'' e ''Palavras Ausentes (Junto a Ti)'' foram bonitas de se ouvir; não se deve esquecê-las. A segunda metade foi mais bem equacionada com as faixas de ''Faluas'', declaração de amor, aqui, à Lisboa dos integrantes. ''Pois nós somos de Lisboa, ora pois!'', exclamou a vocalista, para justificar a profusão de letras que evocariam adiante a cidade natal. ''Adoro Lisboa'' e ''Lisboa, Rainha do Mar'' certamente também não serão esquecidas.
A grandiosidade da sala de convenções não ajudou muito na qualidade do som, tampouco as cadeiras que abrigaram, semana passada, os empresários que assistiram no mesmo local ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Entre um comentário e outro sobre o desconforto, e a lembrança do Teatro Guaíra a poucos quilômetros de distância, um alívio: a iluminação estava perfeita. Não demoraria muito, porém, para a ressalva ficar clara nas palavras de uma generosa Teresa, que agradeceu a sempre presente equipe técnica de iluminação. Deles, os portugueses, fique claro.
A presença de palco da vocalista e a sobriedade meio triste, meio saudosa típica do fado, e que caracteriza a aura dos demais Madredeus em relação ao público minimizou as intempéries alheias de espaço. Quanto ao tempo, talvez só ele mesmo supra a lacuna pelo raríssimo repertório de álbuns dos quase 20 anos de carreira. Apenas duas faixas foram tocadas, ainda assim nos dois bis, e debaixo de pedidos suplicantes da platéia. O quinteto se rendeu apenas em ''O Paraíso'' e ''Haja o que houver'' esta última, como na passagem de 2002 por São Paulo, parceria entre Teresa e os espectadores, que arriscaram os versos ''haja o que houver, eu estou aqui''. Muito pouco para uma primeira visita ao Paraná, e talvez o primeiro show para fãs antigos da banda. Mas também muito pouco ante tudo que se viu, que se ouviu.
A diversidade de tipos no espaço curitibano foi um exemplo localizado do quão universal é a música do Madredeus. Do mochileiro à socialite. Do fã brasileiro ao do Japão, onde o grupo é sucesso há anos. Como diria Teresa na quarta-feira de frio curitibano, é música ''para celebrar o encontro das diversas culturas que ouvem os Madredeus''. São gajos de qualidade, alguém arrisca esquecê-los?

DISCOGRAFIA

Confira os álbuns do Madredeus lançados entre 1987 e 2005

- Os Dias da Madredeus (1987)
- Existir (1990)
- Lisboa (ao vivo duplo; 1992)
- O Espírito da Paz (1994)
- Ainda (1994)
- O Paraíso (1997)
- O Porto (duplo, ao vivo; 1998)
- Antologia (2000)
- Movimento (2001)
- Electronico (2002)
- Euforia (coletânea; 2002)
- Um Amor Infinito (2004)
- Faluas do Tejo (2005)

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