PONTO DE VISTA - Mãe coragem
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 09 de junho de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Um poder oculto se esconde nas mãos, que subjuga os olhos e os outros sentidos endurecidos sob a força que mantém o punho fechado. Para alguns, a vaidade e o egoísmo são os que pressionam os dedos contra a própria carne nesse gesto de quem não tem, não pode ou não quer dar nada.
Em ''Mãe Coragem e Seus Filhos'', espetáculo do Armazém Companhia de Teatro, grupo do Rio de Janeiro, que nasceu em Londrina, o calor dessas mãos ajuda manter viva a miséria humana, uma matrona que alimenta os filhos no peito: a avareza, o medo, a injustiça, - o poder escondido entre os dedos ferindo a própria carne.
O distanciamento proposto pelo autor do texto clássico Bertolt Brecht (1898-1956) torna mais fácil o espectador apertar a própria mão, sentindo que não está vazia, mas cheia com os mesmos sentimentos que faz os homens se encontrarem na guerra.
Paulo de Moares, diretor que é um dos mais importantes do Brasil, e que iniciou a carreira sob a direção do londrinense José Antonio Teodoro, chegou ao texto ambientado na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), com as suas mãos abertas e cheia de generosidades, proporcionando aos espectadores do Filo o que uma companhia com 20 anos de trajetória pode oferecer.
As ruínas dos personagens vão erguendo grandes edificações em que estão aquarteladas as nossas sombras. Patrícia Selonk no papel de Kattrin, a filha muda, e Simone Mazzer, como Anna Fierling, a Mãe Coragem, desafiam o equilíbrio, pressuposto da razão, destruindo todas possibilidades de acreditarmos num mediador do absurdo.
Armazém faz um teatro em que o diretor cuida de todos os detalhes. A sensação que temos é que estamos conhecendo e vendo, no palco, os pensamentos, as sombras e a poesia de Moraes que, em ''Mãe Coragem...'', faz a gente ter medo de nós mesmos por sabermos que corremos o risco de fecharmos o coração, como quem não tem, não pode ou não quer dar nada.


