Curitiba - Um dos melhores momentos da abertura do 14 Festival de Teatro de Curitiba, anteontem, foi quando o diretor Antunes Filho, 75 anos, subiu ao palco depois dos longos discursos dos patrocinadores e apoiadores para pedir ''calma'' à platéia. Segundo o diretor, as estréias dele são sempre cercadas de expectativas, mas a apresentação de ''Foi Carmen Miranda'' exigia atenção diferente. ''Todos estão em clima de festa, mas este é um espetáculo zen. Se acalmem, respirem, meditem. Vou dar dez minutos a vocês e depois começaremos o espetáculo'', avisou Antunes. Aplausos, talvez os mais sinceros da noite.
Assim como já tinha adiantado Antunes, ''Foi Carmen'', uma homenagem à cantora portuguesa que viveu no Brasil e fez sucesso em todo o mundo, Carmen Miranda, e ao ''pai'' da dança butô, o dançarino japonês Kazuo Ohno, é feita de detalhes. Alguns detalhes surpreendem no conjunto da montagem. Nenhum é mero adereço, mas como disse o próprio Antunes, o espetáculo acontece dentro de cada um. E cada espectador depende de uma certa bagagem cultural para entender o tributo. O trabalho traça um paralelo entre Carmen Miranda e a bailarina Antônia Mercê, homenageada por Ohno no espetáculo ''La Argentina''.
Como já é tradição nas montagens de Antunes, o grande destaque é o trabalho de ator. O elenco mostra uma surpreendente interpretação, ora na movimentação minimalista, ora nas cenas congeladas que exigem intensa concentração. Elemento difícil de conquistar quando se trata de uma estréia onde o público é formado essencialmente por patrocinadores e convidados que não estão exatamente acostumados ao exigente trabalho desenvoldivo por Antunes.
Destaque para a ótima atuação da jovem atriz Paula Arruda, de 24 anos, que inicia a montagem com movimentos graciosos e um sorriso mágico disposto a encerrar até mesmo as incessantes movimentações, cochichos e cochilos do público. É a postura no palco, aliás, dessa vez de todo o elenco, que preenche o texto ausente de vocábulos compreensíveis, já que o pouco texto falado do espetáculo acontece no fonemol, idioma criado por Antunes. Depois de discursos tão fora de contexto, onde números de produção e volume de clientes das empresas serviram de base para abrir um evento cultural, ouvir o fonemol é música para os ouvidos.

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