PONTO DE VISTA - Excessos funcionam contra ou a favor
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terça-feira, 24 de junho de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Dois espetáculos em cartaz em Curitiba levam para os palcos cenas da realidade, seja ela burlesca ou cruel. A diferença determinante entre os dois está na abordagem. ''João and Maria'', espetáculo da Cia. Senhas de Teatro, com texto e direção de Sueli Araújo, fala sobre a relação das pessoas com a mídia (e vice versa) adotando uma linguagem cênica calcada no exagero, mas com doses generosas de seriedade. Já ''Lisístrata ou des-traída venceremos'', dirigida por Mariana Zanette, se restringe ao excesso e não consegue uma relação verdadeira com o que acontece no mundo fora dos palcos.
''Lisístrata'' foi inspirado na obra homônima do grego Aristófanes em que um grupo de mulheres decide fazer uma greve de sexo. Mas no espetáculo atualmente em cartaz no Cine, é preciso que o espectador faça um verdadeiro exercício de imaginação para encontrar referências do texto original. No programa da peça, a diretora avisa: ''este espetáculo não é grego, não segue uma linha de interpretação, não possui protagonista, não é uma historinha''. É a única verdade da montagem.
Na cena inicial, a platéia se depara com personagens que bem poderiam fazer parte de uma espécie de trem fantasma e que não têm relação nenhuma com o restante da montagem. ''Você vai morrer'', dizem os atores, vestidos de preto, como manda o figurino das escolas de teatro. Parte da platéia é pega de surpresa para ficar em pé no centro do palco, envolta em um manto que desce do teto. Uma interação dispensável, diga-se de passagem, assim como as outras que acontecem no decorrer do espetáculo. Quando a montagem cativa o público, os personagens não precisam contracenar forçosamente com a platéia, porque o envolvimento acontece naturalmente. Não é o caso de ''Lisístrata''.
A peça tem participação do diretor e ator veterano Guilherme Durães, que participa tanto como ator (garantindo algumas poucas doses de riso) como quanto autor do espetáculo. Também no programa, ele explica que a idéia original da montagem era realizar um processo coletivo de criação, mas com a aproximação da estréia, ele precisou intervir. O resultado é uma miscelânea de linguagens.
Vê-se de tudo no espetáculo, de forró a contos de fadas. De sotaques nordestino a carioca. De falsos suspiros ofegantes a interpretações realistas. O realismo, aliás, fica por conta de cenas pouco convincentes que tentam retratar a violência urbana. Mas paradoxalmente essa mesma miscelânea é passível de salvação no espetáculo. A música executada ao vivo, por exemplo, confere os raros pontos altos da peça, assim como alguns bons atores que fazem parte do elenco, como Jana Mundana e Fábio Silvestre.
E se ''Lisístrata'' peca pelo exagero e excesso, ''João and Maria'' lança mão dessa mesma característica a seu favor. A companhia foi buscar nos programas sensacionalistas das tardes de televisão, material para a montagem do espetáculo. E embora carecendo de um pouco mais de sintonia entre as cenas, o resultado é um espetáculo enxuto e verdadeiro. Se a relação com o conto de fadas João e Maria é sutil, com a realidade, chega a ser intensa, forçando um olhar ao redor.
Serviço: ''Lísistrata ou Des-traídas venceremos'', em cartaz até o dia 13 de julho, de quinta a sábado, às 21 horas e domingo às 13h30 no Cine (Rua João Gualberto, 81). ''João and Maria'', em cartaz até o próximo dia 29, no Espaço Pé no Palco (Rua João Negrão, 2.340). Sexta e sábado às 21 horas e domingo às 19 horas.


