‘‘Objeto Gritante’’, apresentada por Robson Betiati traz para o palco o universo de Clarice Lispector contido em sua obra ‘‘A Paixão Segundo G.H.’’. É quando a provocante ‘‘poesia filosófica’’ de Clarice toma conta da cena, nas mãos e cuidados de um jovem ator e diretor norte-paranaense.
  A peça ‘‘Objeto Gritante’’ é estruturada em forma de espetáculo-solo, onde somente a presença de Robson domina a cena. Trechos de ‘‘G.H.’’ são unidos a textos do próprio ator/autor, e interpretados em forma de monólogo. Porém, não há narrativa, não há personagens como estamos acostumados a ver em teatro. Ao contrário de interpretar, ou transpor o texto de Clarice para o palco, Robson propõe-se a recriá-lo, de maneira a incorporar na encenação as suas experiências pessoais vividas a partir da leitura de ‘‘A Paixão Segundo G.H.’’.
  Como resultado desta pesquisa, toda a concepção do espetáculo foi realizada por Robson, de maneira a preservar as experiências pessoais geradas a partir de ‘‘G.H.’’. Trata-se, portanto, de um espetáculo teatral fundamentado na experiência da performance, onde o ator deixa de ser um mero executor de propostas, e passa a ser o autor e diretor de si mesmo.
  A experiência empreendida por Robson une a teoria e a prática do teatro de uma maneira audaciosa. Nem sempre encontramos este tipo de ousadia nos espetáculos apresentados em Londrina. Assim, esta é uma das raras experiências locais de longo estudo teórico aliado a uma prática sistemática de investigação cênica. Talvez seja, juntamente com a experiência de outros bacharéis em teatro, formados pela UEL, a inauguração de uma nova perspectiva para o teatro londrinense.
  Em seu mergulho pela linguagem da performance, Robson procura romper os processos de elaboração teatral. Sua opção, obviamente, implica em uma abordagem conceitual, onde as idéias tornam-se mais importantes do que a forma. Surpreendentemente, Robson consegue articular uma equivalência muito rica entre o peso poético das idéias de Clarice e a forma cênica articulada por ele. Assim, mesmo salientando um cunho conceitual e especificamente filosófico em seu trabalho, Robson não deixa de apresentar cenas muito elaboradas. Ora, tudo, em ‘‘Objeto Gritante’’, se assemelha ao teatro, e ora, tudo o que vemos é a negação da realidade teatral.
  A musicalidade da voz de Robson é certamente uma das grandes qualidades formais do espetáculo. Com uma variação provocadora entre graves e agudos, Robson nos confunde com sua incursão pelos gêneros masculino e feminino. Em sua voz e presença física, ambos se misturam numa mesma construção. E isto nos provoca tanto quanto o mundo feminino de Clarice. Robson brinca com esta duplicidade e multiplicidade de significados. Por momentos vemos, em cena, Clarice, ou a personagem G.H. de seu romance, e ao mesmo tempo vemos o próprio Robson como um personagem de si mesmo, colocando-se de maneira absolutamente pessoal.
  Chama-nos a atenção a presença física do ator. Seu corpo pequeno flui pelo espaço cênico com tal domínio e energia, que sua figura torna-se amplificada e poderosa. Porém, sua habilidade maior não está em mover seu corpo, transformando-o em homem ou mulher, em sábio ou monstro; sua destreza maior é provocar e tocar a platéia de maneira profunda, fazendo com que cheguemos muito próximos da experiência de desestruturação contida em G.H.. As imagens corporais elaboradas por Robson deixam-nos absortos, curiosos pelo que vem em seguida, pela metamorfose da identidade abalada de G.H., pelo horror e abjeção evocado em suas cenas.
  Tudo em ‘‘Objeto Gritante’’ contribui para que estejamos em um redemoinho, em uma tempestade de palavras e sensações inusitadas. Isto acontece, porém, de forma cadenciada, onde sentimo-nos sendo levados numa espécie de visita ao mundo pequeno do quarto de G.H.. Neste quarto, um universo caótico se descortina. Trata-se de um espaço de abandono em que nos deparamos com o objeto perdido de desejo, e com a ausência de significados. Quem nunca se deparou com isso? É neste momento de identificação de nosso próprio vazio, que reconhecemos o quanto ‘‘Objeto Gritante’’ fala de nós próprios.
Fernando A. Stratico é Doutor em Artes/Performance e docente do Curso de Artes Cênicas da Universidade Estadual de Londrina.

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