A expectativa pode gerar alguns incômodos. Ela pode dar origem a mundos inexistentes, frutos impossíveis e desejos insatisfeitos.
Quem que foi assistir ''A Luta do Negro e dos Cães'', espetáculo da companhia alemã Volksbuhner presente do Filo 2005, esperando uma montagem carregada de elementos estéticos exuberantes, pode ter vivenciado algum tipo de constrangimento apertado do calor da poltrona.
''A Luta do Negro e dos Cães'' (Kampf des Negers und des Hunde) focaliza um assunto próprio dos países europeus. A trajetória de uma Europa que atuou na sangrenta colonização oprimindo meio mundo, que cultivou o racismo em todas suas formas e que acentuou a vigente ''xenofobia de mercado''.
Pelo fato de estar fundamentada na dramaturgia de Bernard Maria Koltés, a montagem perdeu seu impacto nas duas apresentações realizadas no Filo. Basicamente pautado pelo texto falado em alemão, o espectador ficou encurralado num insolúvel e fatal drama: entre leitura da legenda imprecisa em português e o trabalho dos atores. O elemento aparentemente decodificado de maneira direta pela platéia, permaneceu reservado ao humor presente na montagem. Um humor curiosamente calcado entre a ironia e o cinismo.
Com direção de Dimiter Gotscheff, uma das características do espetáculo está no tratamento do papel desempenhado pelos atores. Eles não estão preocupados em ''fingir'' que ''interpretam'' determinado personagem. Não trabalham com o reforço na atuação, apenas com seu impulso inicial. Rompem com esse processo de maneira irônica, com elementos do cinismo. Levam em conta que existe uma platéia que deve ser tratada como platéia, como uma possível realidade sem fantasias. Realidade que comporta duas ou mais informações simultâneas.
A estética do Volksbuhner, em ''A Luta do Negro de dos Cães'', pode estar longe surpreendentes revelações, sedutoras novidades e subversões da monotonia. Mas, ao seu modo, sussurra uma frase muito simples: ''O racismo pode ser verdadeiro assim como a tolerância pode ser falsa''.
E a expectativa, como todos sabem, é uma dama que, se levada a sério, sempre aparece acompanhada da frustração. O recomendável, talvez, seja deixar a dama em casa.

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