''A mulher foi feita para sentir, e sentir é quase uma histeria''. A frase encerra um espetáculo que, ao longo de 70 minutos, cria um vínculo de cumplicidade com a platéia feminina, observada atentamente por espectadores masculinos. A montagem ''Hysteria'', do Grupo XIX de Teatro, de São Paulo, foi apresentada em Londrina na semana passada, como uma das atrações do evento ''Um Olhar Incomum'', que encerra hoje o projeto Imagens do Inconsciente.
Foram três únicas apresentações em Londrina, para um público que envolveu homens e mulheres de idades variadas. A Barbierê Produções, organizadora do evento patrocinado pelo Promic (Programa Municipal de Incentivo à Cultura), disponibilizou parte dos ingressos como contrapartida social. Entre eles, mais de 70 foram destinados a pessoas cadastradas no Centro de Atendimento à Mulher (CAM) da Prefeitura de Londrina.
Buscando transportar o público para dentro dos muros de asilos psiquiátricos do século 19, onde mulheres eram internadas como histéricas, o grupo utilizou um espaço da Casa de Cultura da UEL parte de um barracão de uma concessionária desativada. Sem luz artificial ou trilha sonora, somente com cinco atrizes no palco, o espetáculo tem como grande mérito a forte relação estabelecida entre elenco e platéia feminina, parte fundamental da montagem.
Cinco mulheres sem perspectivas, sufocadas em seus desejos e ambições, dividem os anseios, necessidades, dores e aflições com suas cúmplices, e fazem os valores daquela época refletir na condição feminina dos dias atuais. Até algumas décadas atrás, a histeria era uma doença diagnosticada como um mal das mulheres. Era a loucura associada a questões femininas de maternidade, sexualidade, religiosidade, independência. A ''Hysteria'' do Grupo XIX é tratada como uma doença social que existe em função de valores burgueses que atravessam o tempo engessados.
Raissa Gregori, Gisela Millás, Juliana Sanches, Janaina Leite e Sara Antunes vivem Hermínia, Nini, MJ, Clara e Maria. Contam um pouco de suas histórias, memórias e sonhos que ressoam nas experiências de tantas Luizas, Anas, Fernandas... Bonecas, amantes, operárias, mães. Sofridas, negligenciadas, alienadas. Depende dos padrões pré-estabelecidos.
''O trabalho delas é excelente e o texto, aparentemente superficial, toca profundamente a história de cada mulher da platéia. A mulher acuada, sem perspectiva de vida e que precisa abrir a janela para ver a chuva'', diz emocionada Maria Odette da Silva, de 53 anos. ''Foi muito forte. Quase morri... se demorasse mais, ia sair daqui no Siate'', brinca a advogada, que foi uma das escolhidas para contracenar com as atrizes.
Para a atriz Benedita de Faria Coutinho, de 56 anos, o espetáculo fala da vida real, do cotidiano da mulher com a família, o marido. ''Quantas de nós não somos prisioneiras ou sofrem agressões verbais... O espetáculo é muito bonito e muito bom porque ajuda a compreender mais o dia-a-dia da gente''.
Se de um lado elas fazem sua viagem, de outro, eles observam e tentam delinear esse mundo feminino. Uma experiência interessante para o estudante David Gonzales, 26 anos. ''É muito estranho essa coisa do útero; muito forte. Não sei como é isso, nunca vou saber. Mas emociona'', comenta.
Quem se achou de certa forma isolado na platéia foi o professor José Carlos Franco, 39 anos. ''É difícil entender o mundo das mulheres. Me senti um espectador de um mundo do qual não faço parte, até porque no espetáculo elas nos isolam, não notam nem nossas risadas. Não participar disso me deixa intrigado'', diz.
''Hysteria'' pode provocar sensações extremas da platéia. Emoção, frieza, alegria, tristeza, descrença e fé. Exceto indiferença. E, por fim, incita o desejo de abrir portas e janelas e sair para a chuva.

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