Tinha tudo para ser mais um daqueles shows burocráticos reverenciando a Bossa Nova. Até banquinho e violão no palco havia. Canções clássicas, releituras modernas de clássicos do movimento musical brasileiro mais efervescente, econômicas palmas ao final de cada número, enfim, tudo na base do barquinho que vai, a tardinha que vem... Nada disso aconteceu. O show ''40 Anos de Bossa'', com Roberto Menescal e Wanda Sá, no último sábado, no Londrina Country Club, foi marcado por suingue e informalidade. Foi até agora o espetáculo promovido pela Teixeira & Holzmann dentro do projeto ''Royal Golf in Concert'' que mais estabeleceu empatia com o público que ovacionou, cantou e deu gostosas gargalhadas com histórias contadas pelos dois artistas em cena.
Muitos levianamente poderiam atribuir o sucesso do show ao fato de o repertório contemplar músicas conhecidíssimas da Bossa Nova. Ledo engano. Num entrosamento fantástico ora, ora também são décadas de cumplicidade musical Menescal e Wanda de fato envergaram violões e vozes e levaram o público a uma viagem fantástica através de releituras competentes e cheias de suingue. Para acompanhá-los, dois bons músicos: Adriano Giffonu (contrabaixo) e Marcio Bahia (bateria).
Logo de cara a platéia foi arrebatada com ''Desafinado'' (Tom Jobim-Newton Mendonça) e ''Wave'' (Tom Jobim). Daí em diante, o rosário foi desfiado com canções de Carlos Lyra (''Saudade fez um Samba'', em parceria com Ronaldo Bôscoli), João Donato (''A Rã'', com Caetano Veloso). O Rio de Janeiro, a sede da Bossa Nova, foi homenageado através de um pot-pourri delicioso que contemplou, entre outras pérolas, ''Sábado em Copacabana'' (Dorival Caymmi-Carlos Guinle), ''Rio'' (Roberto Menescal-Ronaldo Bôscoli), ''Valsa de uma Cidade'' (Ismael Netto- Antonio Maria), ''Ela é Carioca'' (Tom Jobim-Vinicius de Moraes), ''Samba do Avião'' (Tom Jobim).
Wanda e Roberto também renderam tributo a um dos maiores compositores brasileiros, Cartola. Com levada bossanovística, interpretaram ''Acontece'', ''As Rosas não Falam'' e ''O Sol Nascerá'' (com Elton Medeiros). Wanda, exímia instrumentista e intérprete sofisticada, se deleitava com os solos magnifícos do ex-professor de violão e amigo de longa data. Entre as músicas, histórias hilariantes como a da japonesinha, fanzoca que resolveu acompanhar Menescal a tudo quanto era canto.
Duas das mais divertidas, contadas por Menescal. Belo dia recebe um disco e se deliciava com a voz macia de uma intérprete japonesa. O encanto se desfez em gargarlhadas quando a tal cantora começou a cantar ''O Barquinho'' e num verso, em vez de cantar ''verão'', tascou um ''velão''. A outra era de um casal que tinham gostos parecidíssimos. ''Inclusive ela adorava homens e ele também'', disse para o público que riu e aplaudiu. E não era piada, garantiu Menescal.
Bom humor, histórias engraçadas, músicas inesquecíveis. Quem foi ao show saiu mais satisfeito. O pedido de paz no mundo veio através da interpretação delicada e deliciosa de ''What a Wonderful World'', imortalizada por Louis Armstrong. Claro, ''Chega de Saudade'', a mais emblemática canção da Bossa Nova, não poderia faltar. Fechou a noitada com chave de ouro e com um público aplaudindo freneticamente em pé aqueles quatro músicos no palco, em especial Roberto Menescal e Wanda Sá. Bem que eles poderiam voltar novamente a Londrina. Que coisa linda, que coisa boa se isso acontecesse!!

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