PONTO DE VISTA - Bossa Nova, música à prova do tempo
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 07 de maio de 2018
Célia Musilli<br>Editora da Folha 2 

O show em homenagem aos 60 anos da Bossa Nova, em Londrina, na última sexta-feira (4), trouxe à lembrança um dos melhores momentos da música brasileira. Compositores, intérpretes e instrumentistas como Carlos Lyra, Roberto Menescal, Marcos Valle, Paula e Jaques Morelenbaum trouxeram música de altíssima qualidade, mais que isso, trouxeram memórias. Para quem cresceu com a sonoridade da Bossa Nova, em audições lúdicas que nos faziam imaginar até o movimento em canções como "O Barquinho", assistir ao show teve gosto de sol e mar, embora estivéssemos à noite, no meio de muita gente emocionada, e há quilômetros da praia.
Um homem cantarolava na mesa ao lado e sabia de cor todas as canções, outras pessoas dançavam com malemolência, acompanhando o ritmo. Os 60 anos da Bossa Nova surgiram em ordem cronológica inversa. Primeiro Paula e Jaques Morelenbaum, da geração mais jovem da bossa, desfilaram sucessos de Tom Jobim com o conhecimento de mestres. Afinal, eles acompanharam Tom por mais de dez anos e, com uma bagagem dessas, é natural imprimir às interpretações o espírito de uma época que parece distante, mas que ressurge com força a menor provocação ou estímulo.
Depois vieram Marcos Valle e seu piano para momentos apaixonados que culminaram com "Samba de Verão" e "Viola Enluarada" que parte do público cantou junto, alguns de olhos fechados, numa espécie de celebração em defesa da musicalidade nacional.
A primeira geração da Bossa, hoje octogenária, chegou por último, ainda com o vigor dos anos 1960, nas figuras de Roberto Menescal e Carlinhos Lyra. Ah! Se todos fossem iguais a vocês.
Desse ponto em diante, passou-me pela cabeça a comparação inevitável entre a música brasileira de seis décadas e a atual. O choque entre músicas e letras, entre a qualidade da Bossa e a decadência de hoje, me levaram a observações assim:
Canta Tom Jobim: "É uma ave no céu, é uma ave no chão/ É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão" (Águas de Março)
Cantam Bruno e Barreto:"Mas todo fim de tarde a galera me aciona/ Era pra tomar uma, mas de novo deu em zona" (Farra, Pinga e Foguete)
Preconceito? Não, constatação.
Assisti ao show ao lado de colegas de redação como Vitor Ogawa que cresceu ouvindo Bossa Nova porque o pai, Go Ogawa, é fã do gênero. Eles contaram que no Japão, onde viveram por alguns anos, ouvia-se muita Bossa Nova, na verdade, uma das mais fortes referências brasileiras no exterior. No show, pai e filho eram um exemplo, entre muitos, de gerações seguidas que ouviram as músicas de Tom, Vinícius e outros expoentes que atravessaram o tempo como sinônimo de qualidade.
Em fase de decadência musical, não por falta de valores, mas de divulgação e reconhecimento à altura dos talentos - que existem desde os nichos universitários a compositores com décadas de estrada e pesquisa musical - assistir a um show como esse deu uma espécie de alento, o de pensar que, no fundo de nossa cultura, há gêneros irretocáveis, tanto na melodia quanto nas letras, como esse que resiste 60 anos depois. Na pátria do axé, funk e música sertaneja parece que o ouvido do Brasil desafinou. Porque todos podem ter seu lugar, mas a insistência para que sejamos ouvintes de três gêneros irritantes, como representantes máximos da música brasileira contemporânea, reforça um sentido, se não de decadência, de redução cultural à mesmice.
Nos veículos de comunicação, não se passa um dia sem que cheguem releases de música sertaneja com a insistência de grandes gravadoras para que repórteres viajem para lançamentos para que depois se publiquem as indefectíveis entrevistas de Lalá & Lelé, Gilete & Pirigueti, Tibagi & Laranjinha, Fulano & Sicrano sobre o novo disco, muitas vezes o nono ou décimo da carreira. Eventualmente, todos publicam matérias sobre todos os gêneros, mas na medida democrática de contemplar também ouvidos que não querem apenas acompanhar com exclusividade o drama das bebedeiras, a euforia das conquistas de baixo nível de sedução - comum no funk - e da sofrência. Ainda que exista todo um esforço das gravadoras e da própria mídia para dourar a pílula de gêneros sofríveis, é preciso deixar claro que dinheiro nem sempre compra qualidade e que, na música, nem tudo se resume a sucesso instantâneo e a lucro imediato.


