PONTO DE VISTA - A vida como farsa
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 16 de junho de 2005
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A estupidez pode ser encarada como a arte de transformar a vida comum e cotidiana em ficção. Do mesmo modo como a ficção pode ser vista como a arte de transformar a vida comum e cotidiana em estupidez.
Esse parece ser o foco central de ''La Estupidez'', espetáculo da companhia argentina El Patrón Vázquez apresentado no FILO 2005. Irônico, apresenta uma série de histórias paralelas e, em algumas situações, simultâneas. Com uma ampla gama de personagens, trabalha com um humor limpo de escrachos dentro de uma estética naturalista.
Com um bom elenco de atores, ''La Estupidez'' possui fortes referências de filmes e seriados norte-americanos com uma dose de sarcasmo. Não utiliza exatamente a estética cinematográfica, mas a linguagem de seus roteiros mais contemporâneos. Fragmentos de histórias em constantes cortes e outros recursos são usados para conferir agilidade às cenas, recortes de existências.
Uma das características da ''La Estupidez'' é a definição do perfil dos personagens. Bem elaborados, cada um possui um desenho próprio, uma diversidade que se completa pelo ''quase absurdo''. Em alguns momentos, o roteiro sugere que a trajetória dos personagens será unificada em algum ponto próximo, na verdade um encontro constantemente adiado. Apesar da sugestão, tal encontro ocorre superficialmente, ou simplesmente não ocorre, deixando claro que esse não é o objetivo.
O possível incômodo do espetáculo está em sua duração. Algo que pode chegar aos olhos do espectador como excesso, peso dispensável. A dúvida mais imediata é: ''La Estupidez" precisa ter quase quatro horas de duração?''
São várias as respostas, mas fica claro que a duração do espetáculo é um elemento totalmente intencional da companhia. Exato ou equivocado. Talvez por considerar que a estupidez se prolonga por dias, meses, anos e décadas. Tudo indica tratar-se de uma opção deliberada do dramaturgo e diretor Rafael Spregelburd.
Em ''La Estupidez'', a banalidade das cenas aparecem restritas ao âmbito do superficial. Mas há alguma coisa lá no fundo, praticamente invisível. Histórias alheias a qualquer realidade, narradas independentes de qualquer coisa. Como se afirmasse que a vida pode ser uma farsa.


