Desde que voltou da Europa onde atuou como correspondente internacional até o fim de 2005 , Caco Barcellos não encontrou um lugar no jornalismo da Globo em que seu talento caiba. Culpa disso é a estratégia da emissora, que apela cada dia mais para matérias que privilegiam o lado emocional. Caco é um excelente repórter investigativo e leva seu trabalho a sério. Por isso, dificilmente se daria à pachorra de ficar perguntando indiscriminadamente seja para um ganhador de loteria, seja para uma vítima de uma tragédia dantesca ''o que você sentiu quando isso aconteceu?''. A emissora, no entanto, tratou de arrumar uma solução mesmo que provisória. O quadro ''Profissão: Repórter'', que o jornalista comanda já há um mês no ''Fantástico''. Nele, Caco assume ares didáticos na coordenação dos oito ''focas'' como são chamados os repórteres no início da carreira. Ou seja: os alunos até aparecem bastante, mas talento fica a cargo do ''professor'' que, a cada programa, dá demonstrações de que sua veia de repórter continua afiada.
Entre erros e acertos, nas reportagens produzidas pelo grupo fica a sensação de que tudo não passa de um teste. O próprio Caco demonstra o clima de ''prova'' logo na abertura das reportagens do quadro, quando questiona com um ar de suspense: ''Será que eles vão conseguir?''. A condução das matérias, feitas pelos novatos e pelo apresentador, reforçam ainda mais o perfil didático do quadro. Aos trancos e barrancos, nem mesmo a edição das reportagens consegue encobrir as trapalhadas da ''turminha'' de Caco. Não à toa, a idéia inicial da emissora era fazer uma espécie de ''reality-show'' com os oito jornalistas, escolhidos entre 9 mil candidatos.
Mesmo assim, o quadro é bem editado. Até aqui, o programa reuniu características semelhantes às de uma matéria produzida para um telejornal: é ágil e tem certo cunho informativo. As matérias, no entanto, esbarram quase sempre na inexperiência dos jovens repórteres. Ao assistir aos episódios de ''Profissão: Repórter'', o telespectador mais atento percebe logo o perfil ''amador'' do grupo. Pior: quem desconhece a profissão permanece leigo no assunto, porque a produção banaliza os erros cometidos pelos ''focas'', como se fossem ''aceitáveis'' numa edição de um telejornal sério. Ou seja, apesar da média de 12 minutos de duração tempo que, para a tevê, é enorme , o quadro é marcado pela típica superficialidade da cultura ôfast-food" e não oferece muito além do que uma boa reportagem informaria, caso fosse notícia.
Além disso, as ''aulas'' não mostram como são, de fato, os bastidores de uma reportagem. São totalmente ignoradas informações sobre seleção de pautas, primeiros contatos, pesquisa, produção da matéria, redação de texto e edição de imagem. Mesmo sem mostrar todo o processo que seria um dos objetivos do quadro , é justo afirmar que Caco Barcellos e seus ''pupilos'' foram felizes na escolha das pautas. Até agora, o ''Profissão: Repórter'' exibiu matérias para lá de pertinentes, com interessantes contrapontos de problemas comuns ao cotidiano das distintas populações espalhadas pelo Brasil.
Aliás, este é exatamente o ponto forte do programa. Logo na estréia, a produção conseguiu infiltrar-se no submundo das facções de pichadores de São Paulo e de Brasília. Bem coordenados, os repórteres entrevistaram jovens integrantes dessas gangues e conversaram com um grupo de rapazes que ''caçam'' esses pichadores nas ruas. Em outra reportagem, os ''focas'' conseguiram revelar como funciona o mercado de trabalho dos cortadores de cana-de-açúcar, uma realidade que, mesmo ilegal, ainda se impõe no interior do Brasil. Levando-se em conta os acertos, Caco Barcellos passa com louvor na função de professor. Mas não há como deixar de lamentar o desperdício.

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