Quando a exatidão técnica de um artista é evidente, ao expectador cabe um passo além do estado de admiração. Um pequeno passo em direção ao que existe atrás da capacidade técnica, aquilo que dá sentido à própria obra.
''Mémoire de la Nuit'', trabalho que o suíço Philipp Boe apresenta no FILO 2007, pede esse tipo de abordagem. Um espetáculo cerebral, racional em toda sua extensão, pautado pelo mistério e pelo ilusionismo. Algo aparentemente contraditório, mas calculado, onde os acontecimentos são substituídos por soluções ilusionistas.
Para apresentar a investigação de um assassinato, Philipp Boe se inspira na obra do pintor belga René Magritte (1898 - 1967). Mais especificamente na idéia de uma tela em que o artista desenhou um cachimbo e escreveu logo embaixo da imagem, ''isso não é um cachimbo''.
Magritte queria simplesmente dizer aquilo que as pessoas enxergavam na tela não era um cachimbo, mas a representação de um cachimbo, a imagem de um cachimbo. Assim como a própria palavra ''cachimbo'' não é um cachimbo, mas igualmente uma representação.
Em ''Mémoire de la Nuit'' Philipp Boe retira desse conceito o maior proveito possível. Multiplica suas potencialidades. Além de fazer uso de imagens e objetos que ocupam o lugar de pensamentos e sentimentos, coloca palavras escritas ocupando o lugar das coisas. O território do real é deixado de lado. Tratando a arte como representação, sinaliza que qualquer linguagem pode ser utilizada com esse objetivo.
Se todo espetáculo teatral é uma representação, ''Mémoire de La Nuit'' faz questão de acentuar esse conceito. O próprio crime da trama, bem como a tentativa de desvendar seu respectivo culpado, é evidenciado como representação através da ilusão de ótica. As mágicas ilusionistas reforçam essa idéia. Ou seja, aquilo que o espectador pensa que vê não é exatamente aquilo que está diante de seus olhos.
O ilusionismo é utilizado como estrutura narrativa. Uma estrutura que coloca uma representação dentro de outra representação, onde o próprio espetáculo acontece na memória do personagem. Ou seja, a ilusão da ilusão na ilusão de um espetáculo. Idéia materializada.

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