Ponto de virada
PUBLICAÇÃO
domingo, 10 de janeiro de 2016
Caroline Borges<br> TV Press 
Marco Pigossi vive um sutil momento de transição em sua carreira. Aos 26 anos, o intérprete do policial Dante, de "A Regra do Jogo", começa a interpretar papéis que lhe exigem uma outra carga emocional e física de trabalho. Conhecido do grande público por personagens românticos e serenos, o ator pretende transcender seu "physique du rôle" com um rosto de traços finos e porte de galã. Por isso mesmo, vem analisando e propondo um rumo diferente e consistente para sua trajetória. "É uma fase muito interessante da minha carreira. Acho que foi um ano muito corajoso para mim. Tentei não ir pelo lugar-comum. Tanto no teatro quanto na tevê, fiz trabalhos que me colocaram em um registro diferenciado, onde ninguém tinha me visto ainda", aponta.
A carreira artística sempre chamou a atenção de Pigossi, natural de São Paulo. Ainda assim, seu caminho profissional foi se solidificando com o tempo. Afinal, desde que viveu o carismático Cássio, de "Caras & Bocas", sua trajetória manteve uma crescente dentro da Globo.
De lá para cá, interpretou perfis ácidos, como o "bad boy" Rafael, de "Fina Estampa", e o romântico Juvenal, de "Gabriela", até ser alçado ao posto de protagonista em "Sangue Bom" , de 2013, e, logo depois, viver o mocinho Rafael, de "Boogie Oogie". "As coisas aconteceram muito naturalmente. Um papel abriu caminho para outro. Não pulei etapas. Foi muito bom ter feito seis novelas antes do meu primeiro protagonista. Essa escada me deu segurança", afirma.
Você ficou sabendo do convite para "A Regra do Jogo" durante a reta final de "Boogie Oogie". O que mais o atraiu em relação ao Dante?
É um papel que me coloca em um lugar relativamente novo. Venho de personagens muito românticos e tranquilos, como o Bento, de "Sangue Bom", e o Rafael, de "Boogie Oogie". O Dante é um policial e carrega uma agressividade na vida. Buscava ir além da minha zona de conforto. Queria trabalhos que me colocassem em outra temperatura. O Dante ainda é o começo disso. Agora, quero buscar projetos dentro dessa linha. Quero papéis que me mostrem com uma cara e um jeito diferente.
Os personagens do João Emanuel Carneiro são marcados pela personalidade dúbia. Isso influenciou o seu processo de composição de alguma forma?
Não. Isso é algo bastante natural nas novelas. Busquei me aproximar da história de vida desse personagem. Procurei entender o Dante e não julgar suas atitudes. Fui pegando vários fragmentos para montar esse papel. Me inspirei um pouco, mas não completamente no personagem do Matthew McConaughey na série "True Detective". Assim como o Dante, ele é um cara obscuro, sem esperança e um pouco obcecado demais.
E foi atrás de outras referências para compor o lado policial do Dante?
Sim. Fiz visitas ao Bope (Batalhão de Operações Especiais) para entender a parte operacional, como se comportam e como funciona uma operação de resgate. Já na Polícia Civil, busquei entender o dia a dia e a forma de agir e falar. O João tem uma preocupação imensa em fazer tudo muito realista. Também comecei um treino funcional intenso para me aproximar dessa energia corporal deles. Não busquei uma questão de estética. Queria entender o universo mesmo. Saber como era se movimentar com um equipamento tão pesado, por exemplo. Um uniforme completo de operação pesa quase 25 kg. É necessário estar preparado para essas atividades físicas.
Nos últimos anos, você tem emendado uma série de novelas. Manter-se no vídeo é uma necessidade?
Não necessariamente. Mas sempre são convites que me encantam. Quando me ofereceram o Bento, de "Sangue Bom", era meu primeiro protagonista. Foi uma grande chance na tevê. Queria ter essa experiência e aprendizado. Depois, teve o Rafael, de "Boogie Oogie", que era um trabalho de época e tinha uma ligação forte com a aviação. Agora, o Dante é um universo novo. Gosto quando me oferecem personagens que me tiram do lugar-comum e me desafiam artisticamente.
Desde a sua estreia como protagonista, como você lida com a alta carga de trabalho que envolve seus personagens?
Fui ganhando experiência e maturidade a cada trabalho. Ao longo do tempo, você vai criando métodos de organização para estudar e se preparar para as cenas. Sei que estou mais maduro do que na novela anterior. Essa questão de saber lidar com a carga de trabalho é bastante relativa. O Bento, de "Sangue Bom", tinha um volume absurdo de cenas. Mas o Dante me exige muito mais fisicamente.
Por quê?
São cenas muito trabalhosas. Além de ele passear em todos os núcleos, as sequências do Dante geralmente envolvem figuração, carros, efeitos, bombas e armas. São questões técnicas que fazem a diferença. O Bento, por exemplo, me exigia uma força mais intelectual e emocional. O Dante é um cara bem reto e objetivo em seus pensamentos.
Você tem uma atuação bastante constante no teatro nos últimos anos. Aproveita a visibilidade que a tevê proporciona para atrair mais público para os espetáculos que faz?
Claro. A televisão ajuda bastante a levar público para o teatro. Mas isso não é garantia de sucesso ou de casa lotada. Não é porque estou na novela das nove que o teatro vai estar sempre lotado. Acho que o teatro ajuda bastante a manter os pés no chão.
Como assim?
O teatro traz você para a realidade do ofício. A gente faz maquiagem, figurino, produção e chama o público pelo braço. Não tem glamour. Rala muito mesmo. Tenho uma necessidade muito forte de estar sempre voltando ao teatro para me reciclar. É onde o ofício faz sentido.
Para Marco Pigossi, boa parte de sua liberdade artística ainda se encontra no teatro. Ao longo dos anos, o ator está cada vez mais engajado em produções teatrais, onde mantém uma maior autonomia de suas escolhas profissionais. "O teatro é livre. Posso fazer uma criança ou uma velha de 80 anos. A câmara, querendo ou não, prende a gente em uma realidade muito rígida. Tem muito limite nesse sentido", compara.
Além disso, é no teatro que Marco consegue exercer a sua função social como ator. De acordo com ele, é responsabilidade de boa parte dos profissionais fomentar a cultura no país. "A arte tem uma função social. Temos de incentivar o público a ir ao teatro. Gosto de fazer trabalhos que causem algum questionamento no público. Procuro peças e textos que me interessem e que eu tenho alguma propriedade para falar", explica. (C.B.)
A comédia ainda é uma realidade pouco palpável na carreira televisiva de Marco Pigossi. Mesmo após a grande repercussão do extrovertido Cássio, de "Caras & Bocas", o ator não voltou a encontrar o gênero em seus trabalhos seguintes. Inclusive, o divertido Merlô, papel de Juliano Cazarré, chegou a chamar a atenção de Marco durante o período de pré-produção. "Fiquei pensando como eu poderia fazer esse cantor de funk. Mas, naquela época, o Dante já tinha me dominado. Nesse momento, percebi que sinto falta de fazer tipos mais cômicos na tevê. Consigo exercer isso no teatro. Então, me sacia", explica. (C.B.)


