Homem-bomba, carro-bomba, mulher-bomba, avião-bomba, bicicleta-bomba, caminhão-bomba, garoto-bomba, carrinho-de-bebê-bomba, etc. Todos dias alguma bomba explode em alguma parte do mundo. Os noticiários dos jornais anunciam os infindáveis números de mortos e feridos. Uma parte de pólvora para três partes de sangue. Uma parte de fé para três partes de pólvora.
As coisas ganharam maior proporção após o dia 11 de setembro de 2001, quando dois aviões invadiram as torres gêmeas do World Trade Center em Nova York. O atentado deixou a sociedade norte-americana de boca aberta e lágrimas nos olhos. Desencadeou ações que, em nome da segurança, colocou mais pólvora na fogueira.
Reverberando os acontecimentos, a literatura fez do tema um território fértil. O universo do terrorismo colocou os dois pés em dezenas de romances, em centenas de contos e poemas. O escritor norte-americano John Updike não escapou da tentação em trabalhar com o assunto e escreveu ''Terrorista'', romance que acaba de ser lançado pela Editora Companhia das Letras.
Nascido em 1932, na Pensilvânia, John Updike fez de grande parte de sua obra um retrato da vida medíocre da classe média americana. Com boas doses de ironia, atuou como um cronista das imbecilidades da vida do homem comum, sempre repleta de desejos e frustrações. O personagem Rabbit, protagonista dos romances ''Coelho Cresce'', ''Coelho Corre'', ''Coelho em Crise'' e ''Coelho Cai'', se tornou clássico nesse sentido.
Ahamad, protagonista de ''Terrorista'', é um típico adolescente americano em crise. Filho de pai árabe e mãe irlandesa, se converte ao islamismo por vontade própria. Encontra na religião um refúgio para uma infinidade de dúvidas. Criado por uma mãe apática, encontra na figura do imã da mesquita que frequenta um porto seguro.
Deslocado frente ao comportamento dos colegas de escola, decide deixar os estudos e trabalhar como motorista de caminhão, emprego mediado pelo imã. Quem não gosta da decisão é Jack, judeu orientador educacional do colégio onde Ahamad estuda. Fiel à religião, o garoto é impelido a participar de um atentado terrorista em Nova York. Sua missão é efetuar um atentado suicida dirigindo um caminhão entupido de explosivo.
Basicamente essa é a trama apresentada por John Updike em ''Terrorista''. Uma história semelhante a vários outros romances sobre o assunto: um deslocado garoto abduzido, através da fé, por terroristas atuando em nome do Islã. Um tema que a cada dia se torna mais e mais gasto.
John Updike não acrescenta ao tema nenhuma nova abordagem. Criou um romance previsível, sem surpresa, sem impacto. Mesmo mantendo sua missão de expor a mediocridade da vida cotidiana norte-americana, trabalha com uma narrativa próxima do cansaço.
A única surpresa de ''Terrorista'' aparece em suas últimas páginas, quando Jack tenta evitar que Ahmand mande um punhado de gente pelos ares. Na cabine do caminhão, os dois conversam sobre a vida pouco antes do ponto final. Ahmand é um jovem que busca no deus islâmico uma salvação. Jack é um velho que jogou o deus judeu pela janela por não ter encontrado nada palpável na salvação. O caminhão pode explodir a qualquer instante e ambos estão dispostos a partir mesmo querendo ficar. Assim o caminhão segue em frente, a um passo do fim e, ao mesmo tempo, próximo de um novo começo.



Jack chega em casa deprimido porque os problemas insolúveis estão ficando chatos, e suas tentativas de resolvê-los viram uma rotina vazia, uma representação, uma embromação. ''O que eu não consigo entender'', diz ele, ''é como eles se recusam a assumir que estão no buraco. Eles ficam achando que estão muito bem de vida, por causa de alguma roupa vagabunda e espalhafatosa que compraram com desconto, ou de um jogo novo de computador, desses ultraviolentos, ou então um CD que está na moda e todo mundo quer ter, ou dessas religiões novas, ridículas, que a pessoa se droga tanto que volta à idade da pedra.''
E, por ter-se deixado engordar, Beth não consegue mais alegrá-lo como antigamente. Jack jamais diria isso. Ele nunca é indelicado. Até que a vida comum deles não tem sido tão má, Beth conclui, levantando-se da cadeirinha de madeira dura, amparando-se com a mão no encosto, tomando cuidado para que seu peso não faça a cadeira virar. Seria uma bela cena, ela esparramada no chão com a bacia quebrada, sem poder sequer estender o braço e puxar para baixo o roupão antes que os paramédicos chegassem.
(Fragmento de ''Terrorista'', de John Updike)


Serviço:

- Livro ''Terrorista'', de John Updike. Editora Companhia das Letras, tradução de Paulo Henriques Brito, 332 páginas, R$ 47,00

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