Pólo de cinema do Ceará vive crise
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de agosto de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 19 (AE) - A notícia teve efeito de nitroglicerina no meio cinematográfico brasileiro: os cineastas Orlando Senna e Maurice Capovilla haviam sido defenestrados da direção do Instituto Dragão do Mar, no Ceará. Afinal, o Dragão é tido como modelo de escola de artes, cinema entre elas. Desenhado por Capovilla e Senna nos moldes da Escuela de San Antonio de los Baños, em Cuba, o Dragão funciona como eixo de um bem integrado projeto de pólo cultural, articulando-se com outras instituições locais. Os cineastas demitidos receberam moções de apoio assinadas por nomes como Nelson Pereira dos Santos, Mário Carneiro, Paulo César Saraceni, Roberto Farias, Ricardo Dias, Ricardo Aronovich, Norma Bengell, Plínio Marcos, Guilherme de Almeida Prado, Ismail Xavier e Jean-Claude Bernardet, João Luiz Vieira, entre outros.
O projeto do instituto desenvolveu-se com aprovação do governador do Ceará, Tasso Jereissati (PSDB), e do seu então secretário de Cultura, Paulo Linhares, que se afastou para concorrer a uma cadeira na câmara estadual. Eleito, preside hoje uma CPI que vem incomodando prefeitos do Estado. Para seu lugar, Linhares indicou Nilton Almeida, atual secretário, que demitiu Senna e Capovilla e, para o lugar deles, chamou o professor Silas de Paula.
Segundo alguns alunos do Dragão do Mar, a saída de Senna e Capovilla é apenas a ponta mais visível de um processo de desmanche de todo o projeto. Uma aluna de dramaturgia e cinema e TV, que compreensivelmente prefere ficar no anonimato, informou que o encontro de avaliação de resultados do ano do instituto, que seria realizado nos dias 23, 24 e 25, foi cancelado pela nova direção. "Alegaram que havia perigo de utilização política do encontro", disse. Segundo ela, os alunos estão desorientados e, muitos deles, desesperançosos quanto ao futuro do Dragão. "Não temos nada contra Silas de Paula, mas a prática de Capovilla e Senna, que são grandes realizadores, é insubstituível", diz.
Não é o que pensam dois importantes cineastas do Estado, Rosemberg Cariry (de "Corisco e Dadá") e José Araújo (de "O Sertão das Memórias"), que se manifestaram em textos veiculados pela Internet. Neles, procuram desvincular-se de um possível "golpe" no instituto. Araújo e Cariry dizem confiar na capacidade de gestor cultural de Silas de Paula e desmentem qualquer motivação bairrista nas demissões (Orlando Senna é baiano, Maurice Capovilla, paulista).
Além de outras motivações para a crise, havia a latente insatisfação local em relação a filmes rodados no Ceará por gente de fora, como Bela Donna, de Fábio Barreto, Bocage - o Triunfo do Amor, de Djalma Limongi Batista, Villa-Lobos, de Zelito Viana, ou Eu não Conhecia Tururu, de Florinda Bolkan. Enquanto isso, o dinheiro não saía para projetos locais, como Lua Cambará, de Cariry, e São Sebastião, de Araújo.
"Eles se esquecem de que os tais grandes projetos foram para cearenses na diáspora, como Luiz Carlos Barreto ("Bela Donna"), Florinda e Zelito", retruca Capovilla. "Além disso, o Dragão é uma escola e não um órgão financiador de projetos". Segundo a sua interpretação, o buraco é mais embaixo e o Dragão do Mar foi eleito como fórum para um acerto de contas político que ocorre em outra parte. É também o que pensa Orlando Senna. Em texto enviado à AGÊNCIA ESTADO, Senna localiza o que seria "o centro do abalo": "O deputado Paulo Linhares... tornou-se incômodo a setores majoritários do partido ao se comportar mais como intelectual que como um tucano obediente, inclusive votando a favor e assumindo a presidência de uma CPI desagradável ao governo, que investiga desvio de verbas no Estado."
Não é o que pensa o atual diretor do instituto. Segundo Silas de Paula, não há nenhuma relação entre a CPI e a intervenção no Dragão do Mar. Para Paula, que se declara capixaba, a motivação do secretário Nilton Almeida foi puramente administrativa. "Necessitava-se de alguns ajustes no Dragão do Mar e eles não estavam sendo feitos." Esses ajustes diriam respeito à adequação dos orçamentos à disponibilidade do Estado e à interiorização da cultura pelo resto do Ceará. Paula evitou comentar a atuação do deputado Paulo Linhares e sua influência na crise: "Quero apenas lembrá-lo de que antes de ser do PSDB ele foi do PT e, agora, de que partido será? Acho-o muito fluido nesse aspecto."
O atual secretário da Cultura, Nilton Almeida, diz que interpretações são livres e o que prevalecem são os fatos: "Os diretores das outras áreas do instituto foram preservados", argumenta. A sua versão para a demissão de Senna e Capovilla é que algumas medidas visando à interação maior com a universidade e à validação dos diplomas do Dragão não teriam sido providenciadas, como ele havia determinado. Confirma o cancelamento da reunião dos estudantes e também avisa que aqueles que deixarem de frequentar as aulas deverão ser substituídos.
Ou seja, a crise do Dragão parece mesmo estar no meio de um tremendo imbróglio político. Como escreveu um bem informado colunista da cidade, sob o título "Guilhotina Afiada": "Só um tolo de marca maior pode imaginar que o secretário Nilton Almeida tenha guilhotinado tantas cabeças do Dragão do Mar sem o prévio conhecimento e o imprescindível sinal verde do Cambeba. É mais fácil acreditar que Papai Noel existe." Cambeba é a sede do governo estadual do Ceará.


