Política para principiantes
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de junho de 1998
André Bernardo Cult Press 
ReproduçãoJoão Ubaldo:
novo livro
é um
divertido
curso
prático
para quem
quer
entender de
políticaPolítica: Quem Manda, Por que Manda e Como Manda é um livro atípico na obra do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro. Famoso por escrever romances de forte conteúdo político, o autor de Viva o Povo Brasileiro e Sargento Getúlio deixa a ficção de lado para investir num texto de caráter mais acadêmico. Experiência para falar do assunto, João Ubaldo tem de sobra. Afinal, o escritor também é master em Administração Pública e Ciência Política pela Southern University of Califórnia e ex-professor de Política na Universidade Federal da Bahia. Revista e atualizada pela cientista política Lúcia Hippólito, Política (188 páginas/R$ 21) se propõe a ser um divertido curso prático para quem quer entender um pouco mais do assunto.
Escrito originalmente em 94, Política foi concebido nos moldes de um manual de consulta para iletrados no assunto. Com um vasto conhecimento acadêmico aliado a um estilo leve e despojado, típico de suas crônicas, João Ubaldo consegue explicar, em linguagem clara e objetiva, desde formas de governo até correntes ideológicas. O tom didático empregado pelo autor não chega a tornar o livro entediante. Defensor ferrenho da esquerda, João Ubaldo até tenta ser imparcial, mas incorre no velho chavão de responsabilizar os partidos de direita pelo desinteresse da opinião pública pela política.
A decisão de tornar a política um assunto interessante e acessível, porém, não é o único mérito do livro. Mais que uma profusão de palavreados difíceis ou uma disciplina acadêmica feita de intrincados jargões, João Ubaldo quer mostrar que a política é um espaço de atuação inerente a todo e qualquer indivíduo. Para tanto, ele se apressa em desmentir a idéia de que alguém possa ser apolítico. Já no primeiro capítulo - Que Coisa é a Política - o autor exemplifica que, ao desligar a tevê toda vez que aparece algum político dizendo algo que não estamos interessados em ouvir, estamos apenas ajudando a que o homem que está na tevê consiga o que quer, já que não estamos nos opondo a ele.
Ao longo do livro, João Ubaldo não se cansa de repetir que política não é apenas o exercício de alguma forma de poder que envolve discursos solenes, promessas vãs e, quase sempre, muita falcatrua. Ao mesmo tempo em que respeita o direito de qualquer pessoa a não se interessar por política, João Ubaldo adverte aos apolíticos dos riscos de uma passividade que, na maioria dos casos, pode favorecer a quem está numa situação de mando dentro da sociedade. A certa altura, João Ubaldo chega a dizer que, se a política está entregue nas mãos de gente ruim, é porque as pessoas consideradas boas não querem saber de esquentar a cabeça com essa atividade suja e desprezível.
Repleto da irreverência que caracteriza o estilo do autor, Política revisita as grandes questões das ciências políticas, como a formação e estrutura do Estado e as diferenças entre Estado e Nação, além de elucidar conceitos muito utilizados, porém pouco compreendidos, como ideologia e soberania. Mais adiante, o livro analisa também os aspectos mais práticos da política, como os diferentes regimes, os sistemas eleitorais e os partidos políticos. Ao término de cada capítulo, João Ubaldo apresenta um questionário, elaborado de forma a fazer com que o leitor aplique as idéias e conceitos discutidos aos episódios mais corriqueiros do dia-a-dia.
O momento escolhido pela Editora Nova Fronteira para o relançamento de Política: Quem Manda, Por que Manda e Como Manda não poderia ser melhor. Em época de reeleição, este livro pode mudar a maneira de pensar de boa parte da população brasileira que, descrente da classe política, defende o voto nulo. Por conta disso, a cientista política Lúcia Hippólito - responsável pela revisão e atualização do livro - acrescenta ao texto original de João Ubaldo o apêndice Como se Vota no Brasil, que traça um detalhado painel do processo eleitoral brasileiro, desde os tempos da Colônia, quando eleições indiretas escolhiam os representantes à Câmara Municipal, até 1989, quando o presidente da República voltou a ser escolhido em eleições diretas.


