Política na cabeça
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de agosto de 1998
Xico Sá Agência Folha 
É mais que um livro sobre o poder. Neste ano de eleições, Política - Quem Manda, Por Que Manda, Como Manda é um manual de instruções para o eleitor. Escrito pelo romancista João Ubaldo Ribeiro, o ensaio, relançado em edição revista e ampliada, serve principalmente para os eleitores iniciantes. Mestre em ciência política e administração pública, o autor debulha, de forma didática e sem chatices, conceitos básicos como Estado, governo, ideologia etc.
Para mostrar quem manda e como manda, o romancista aposta em situações banais. Por exemplo, se alguém nos chama para limpar a fossa dele e esse alguém também vive submetido a pressões e decisões alheias, esse alguém pode alegar que, tanto quanto nós, ele também não manda, conta João Ubaldo.
A conclusão: Contudo, quem está limpando a fossa dele somos nós, e não ele a nossa. Para o escritor, quem manda é quem está levando vantagem, como diria Gérson, ex-jogador de futebol.
A preocupação em atender a um público virgem sobre o assunto mancha um pouco, de clichês, o ensaio. Coisas do tipo a união faz a força. Mas nada que estrague o bom humor e a clareza do livro. Autor de Sargento Getúlio, um romance trágico sobre o poder sem limites das pequenas autoridades, João Ubaldo tem a preocupação de mostrar que há política em tudo, em qualquer situação. Nesse ponto, o livro passa a ser bastante proveitoso para uma outra categoria de leitores, a do tipo não estou nem aí. O ensaio mostra que até para fazer um modesto pé-de-meia, o sujeito depende do chamado processo político, que inclui etapas como qualificação profissional, oportunidade de empregos etc.
Para explicar o jogo de poder e as negociações políticas, o autor de Viva o Povo Brasileiro põe em cena um relacionamento e a demarcação dos papéis de marido e mulher dentro de casa. Segundo o escritor, a discussão entre marido e mulher ainda não é política. Mas, se o marido acaba por impor sua vontade, deixando a mulher sem opinião, o caso é político. Pode estar refletindo a situação de inferioridade social, de subordinação imposta.
Para explicar, calmamente, o significado de Estado, o escritor recorre a uma sociedade chamada Ugh-Ugh - o nome é tirado de histórias em quadrinhos protagonizadas por homens primitivos. Com essa sociedade de fantasia, cheia de macacos superiores, João Ubaldo deixa a marca da sua prosa irônica e constrói uma fábula política de primeira. A ficção, a exemplo de Sargento Getúlio, acaba dando as melhores lições sobre os labirintos do poder.


