Política de arte pós-moderna
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de dezembro de 2002
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para Folha 2 
Todos sabem em que condições o NovoMuseu do Paraná - chamado também de
''olho'', ''olhão'', ''olho grande'', ou ''olho gordo'' - recentemente inaugurado em Curitiba, foi executado: um governo em final de mandato criando uma obra de valor vultoso (49 milhões de reais). Dinheiro público colocado em um projeto de caráter discutível, uma vez que tanto os museus existentes quanto seus acervos sofrem com a falta de investimento e manutenção. Isso sem contar como os artistas e agentes culturais foram tratados nesses últimos anos pelo poder público, da centralização excessiva das decisões tomadas em gabinete ao distanciamento intransponível que se criou entre a capital e o interior. Ou seja, de maneira muito menos generosa do que a construção deste museu parece querer mostrar.
Quanto aos aspectos arquitetônicos do NovoMuseu, projetado por Oscar Niemeyer e propagandeado como ponto alto de sua realização, poderíamos nos perguntar se, ao invés de servir para abrigar obras de arte, ele não se faz passar por objeto artístico, invertendo a relação de funcionalidade para a qual foi criado, levando as obras a se adaptarem a ele. Aliás, é hora de questionar esse excessivo formalismo inspirado nas ''curvas da mulher brasileira'' em discurso onde se coloca a preocupação com os ''desfavorecidos'', pois a construção deste ''mundo ideal'' passa pelo sacrifício dos miseráveis de hoje.
Mas, o NovoMuseu aí está. De presente para o novo governo administrá-lo. Não há como deixar de admiti-lo a essas alturas. Para a sua inauguração foram convidados artistas como Carmela Gross, Jarbas Lopes, Laura Lima. Característica do trabalho destes artistas é usar métodos, materiais e suportes que flertam com o lúdico, com a reflexão, com a diversão e com o processo criativo.
Se, para a construção do prédio, produção e divulgação, foram gastos milhões, para os artistas a única coisa paga foi a produção de seus trabalhos. Mais uma vez se cria algum evento para a arte e o único que não recebe por ela é o próprio artista. Ainda assim, o artista consegue inocular certas questões de seu próprio mundo capazes de gerar reflexões sobre o mundo que nos cerca. Quer seja por oposição a este mesmo estatuto do qual ele é obrigado a se ver cúmplice, quer pela aparente aceitação à situação dada.
Um desses trabalhos é ''As três graças'', de Laura Lima. Um tema que é lugar-comum na história da arte. Inspirado em um quadro de Rafael, três garotas nuas ficam, durante todo o tempo de visitação do museu, expostas como arte. Uma obra clássica por natureza (natural e histórica), ela não ''representa as curvas da mulher'', ela (a obra) é as próprias curvas. Diante da ostentação arquitetônica do NovoMuseu, a fragilidade e a graciosidade de corpos nus entregues ao olhar público. Uma fragilidade, vamos dizer, capaz de ameaçar uma edificação inventada para celebrar um mandato. O novo governo Requião deveria adquirí-la como um contraponto inteligente ao próprio edifício recebido do governo Lerner que se finda. Seria como celebrar um pacto com as coisas deste mundo e não com a representação das imagens dele, tão distantes da realidade em que vivemos, cotidianamente. Ser contemporâneo é saber participar desses jogos paradoxais que se colocam a todo tempo em nosso caminho, cuja marca para os próximos anos será de desmontagem e remontagem estruturais, levando em consideração a pesada herança deixada.
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