POLÍTICA CULTURAL - Paranização de novo
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quarta-feira, 15 de outubro de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - É preciso esforço para compreender o projeto Paranização, lançado oficialmente pelo governo do Estado no início do mês, em Foz do Iguaçu, e apresentado anteontem pela diretora-presidente do Centro Cultural Teatro Guaíra, Nitis Jacon, aos deputados, durante tumultuada sessão na Assembléia Legislativa, em Curitiba. A intenção do projeto, segundo explicou Nitis, é incentivar as ações culturais de cada município, atendendendo as demandas locais e promovendo a circulação de projetos já existentes entre as cidades paranaenses. Para cumprir os amplos objetivos, no entanto, o Teatro Guaíra, responsável pelo programa, ainda precisa estipular metas específicas e equacionar o limitado orçamento que recebeu do governo para colocar as ações em prática.
São R$ 500 mil para serem utilizados no programa durante o ano de 2004. A verba conquistada é a metade do que foi solicitado inicialmente ao governo. ''Assim como aconteceu em outras áreas, o projeto sofreu um corte, mas já pedimos apoio ao Ministério da Cultura e creio que seremos atendidos'', prevê Nitis. Com o dinheiro, o projeto quer patrocinar, a partir do ano que vem, espetáculos pré-existentes nas cidades, mas que não têm recursos para continuar se apresentando. Também pretende fazer com que esses espetáculos circulem entre as regiões e não se limitem a apresentações apenas na cidade de origem.
A proposta é semelhante ao Comboio Cultural, projeto da gestão do governador Jaime Lerner (PFL) que promovia a circulação de espetáculos de sete áreas artísticas pelo Paraná. ''Só que o Comboio era um evento que saia de Curitiba para o interior e não tinha continuidade. O Paranização quer incentivar as ações de cada região e ser perene'', diz Nitis comparando: ''O governo muda, mas ninguém quer acabar com o SUS (Sistema Único de Sáude), por exemplo. O Paranização deve ser um projeto semelhante, previsto para acontecer até 2006, mas que tenha continuidade independente do governo que assuma futuramente''.
Um projeto piloto do Paranização já foi colocado em prática em Londrina durante o Festival Internacional de Teatro de Londrina (o Filo, também presidido por Nitis) e deve ser estendido para outras cidades. Trata-se do projeto Granada, que prevê o resgate de lendas, mitos e histórias de pequenas comunidades, bairros e vilas dos municípios paranaenses. Nitis justifica a aproximação entre um projeto do Teatro Guaíra, que assumiu este ano, e o Filo, festival que preside há anos, como uma estratégia para ''reduzir custos'' diante da contingência econômica atual.
É o projeto Granada, que deve receber o ano que vem, o primeiro relatório conclusivo para que se possa analisar as atividades do programa. O relatório deve integrar o segundo caderno Paranização. O primeiro foi apresentando anteontem aos deputados, em Curitiba, como um recurso para pedir apoio ao projeto. Com um lançamento de 5 mil exemplares, o caderno faz uma apresentação do programa, que além das ações concretas prevê metas bastante vagas, como ''estimular a criatividade individual e coletiva'', o primeiro que integra a série de alvos do projeto.
''É um objetivo bastante amplo e que depende de uma política cultural que defina prioridades'', analisa a antropóloga Fátima Freitas. Para ela, é difícil estipular resultados com objetivo semelhante, já que ''criatividade não tem um padrão definido''. ''Se algo é imposto, já não é mais criativo'', comenta a antropóloga, que a pedido da Folha analisou algumas propostas do programa.
Mas definir políticas culturais contundentes também está na mira de Nitis Jacon. ''Em primeiro lugar é preciso parar de tratar a cultura como algo secundário'', disparou anteontem durante o discurso de lançamento do projeto Paranização aos deputados. Pena que o próprio lançamento e a discussão sobre o tema, que deveriam acontecer, ficaram espremidos em uma pauta de agendas importantes da Assembléia, como a votação do projeto de lei que proíbe os transgênicos no Paraná. O eco do programa entre os deputados presentes ficou para outra oportunidade.


