POLÍTICA CULTURAL - Cineasta quer vale-cultura
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quarta-feira, 31 de maio de 2006
Agência Estado 
A situação não é das melhores, mas para o experiente produtor e otimista Luiz Carlos Barreto ''o cinema brasileiro é irreversível''. Ele diz não se incomodar com a redução da ''janela'' entre o lançamento do filme no cinema e no DVD. ''É uma coisa natural do mercado, que está repondo uma receita que não cresceu nas salas de cinema nos últimos anos. O mercado de DVD tem crescido de uma maneira jamais vista, temos hoje no Brasil 15 milhões de aparelhos'', pondera.
Mas mesmo assim, se preocupa com o retrocesso no mercado de salas, que nos últimos anos têm-se concentrado nos grandes centros. Por isso, levou ao Ministério da Cultura uma proposta ousada para incorporar um vale-cultura à cesta básica. ''Levamos uma proposta de política pública para reincorporar 40 milhões de brasileiros de baixa renda ao consumo cultural no País'', explica ele.
''A idéia é estimular não só a construção de cinemas populares, nas periferias urbanas e áreas rurais, com preços populares, mas até mesmo encontrar um mecanismo de um sistema de tíquetes de lazer e cultura, para incluir o consumo cultural no cotidiano do trabalhador de baixa renda. É, seguramente, uma maneira de se pôr 40 milhões de brasileiros no consumo cultural.''
O produtor vê a possibilidade de que o ''vale-cultura'' seja comprado pelas empresas, assim como o vale-refeição. ''Isso poderia ser feito com renúncia fiscal. Prefiro até mesmo que a empresa bote um ingresso de cinema na mão do trabalhador, em vez de pôr dinheiro nas minhas produções'', arrisca. ''É mais justo e mais democrático que a renúncia fiscal vá beneficiar a população. Na medida em que você cria uma demanda por parte da população de baixa renda, vêm os cinemas populares, as livrarias populares etc.''
Barreto vê com muita tranquilidade o movimento do mercado de DVD, até porque vê ali uma possibilidade de aumento de ganhos com os títulos. Mas chama a atenção para o que chama de uma ''política inadequada de preços'' dos ingressos de cinema. E completa dizendo que o mercado de produtos para a população de baixa renda cresceu nos últimos anos no País, mas não beneficiou a cultura. ''Os produtos mais baratos, de todos os tipos, têm vendido mais. Mas ao mesmo tempo, a cultura fica cada vez mais elitizada'', compara.
Os números estão na ponta da língua do produtor, 40 anos de experiência, entre o Cinema Novo à Retomada. ''Nos anos 70, o ingresso de cinema no Brasil custava cerca de 80 centavos de dólar; hoje, custa quase 4 dólares, veja só que absurdo. É por isso que tínhamos naquela época 250 milhões de espectadores por ano e agora tempos 100 milhões, mesmo com o aumento expressivo da população'', contabiliza. ''A população foi aumentando e as vendas de bilhetes, caindo. Cem milhões de espectadores por ano é um número ridículo para um país como o nosso, com 170 milhões de habitantes.''


