Em Londrina, artistas e intelectuais trabalham nos bastidores para as campanhas dos candidatos a prefeito. Um experiência que resulta em propaganda criativa, um show para o eleitor
Criatividade rimando com eleição. Em Londrina, uma das características de parte das campanhas eleitorais para os candidatos à prefeitura foi a presença de um grande time de artistas da cidade na produção dos programas para o horário gratuito. Foram eles os criadores deste ‘‘espetáculo lúdico’’ que foi levado ao ar durante o horário gratuito. Artistas que deixaram um pouco de lado as luzes da ribalta e as alegrias da criação para ir à luta e eleger um candidato.
Para os artistas envolvidos nos bastidores da campanha em Londrina a palavra de ordem é mesmo acreditar. Acreditar nas propostas dos candidatos, vestir a camisa da coligação, respirar, dormir e comer (estes dois últimos ítens com uma frequência não muito saudável) com a ‘‘antena’’ ligada para não deixar escapar nenhuma idéia.
Para o jornalista e escritor Domingos Pellegrini - autor, entre outras obras, de ‘‘Terra Vermelha’’ - e redator da coligação ‘‘Renasce Londrina’ que faz a campanha de Homero Barbosa Neto, a realidade é melhor que a ficção. ‘‘Participar de uma campanha, influenciar as idéias dos candidatos, poder transformar todo este material bruto em mensagens para a toda a população é uma experiência única de criação. Uma excelente maneira de participar e se envolver com os problemas e as soluções da sociedade’’, conta.
Pellegrini, que trabalha diretamente ligado a dois outros atores e uma produtora cultural na elaboração dos programas, se sente em casa com toda a correria que acontece nos bastidores. Gravar imagens, produzir cenários, adequar as falas, editar, fazer músicas, enfim, criar é uma tremenda diversão.
‘‘Em clima de campanha o envolvimento é total. Você fica com aquilo na cabeça. Sai, vai conversar com outra pessoa e, de repente, faz uma música, tem uma idéia. Enfim, você nunca ‘desliga’, e isto é como escrever um livro’’, compara Domingos Pellegrini.
Para o jornalista e ator Apolo Theodoro, também em campanha, toda a movimentação dos bastidores é muito semelhante à uma montagem teatral. A idéia é compartilhada pelo também ator Pocka Marques, ambos da coligação ‘‘Renasce Londrina’’. ‘‘A experiência de palco traz uma cumplicidade ótima entre todos os atores envolvidos. Essa mesma cumplicidade também encontramos na produção da campanha. Outro ponto diz questão à disciplina. No teatro a disciplina do ator é fundamental. Você se despe de sua vaidade pessoal e trabalha duro, engole sapo, aceita críticas, tudo para montar o espetáculo. Em uma campanha é igual, acontece todo este processo para você eleger o candidato’’, contam.
Outra vantagem vista por Marques é a versatilidade dos artistas que fazem os bastidores. ‘‘Tivemos um problema sério durante a gravação de um dos primeiros programas. Contratamos um palhaço e ele simplesmente não apareceu. No melhor clima o ‘espetáculo não pode parar’, tive que vestir a fantasia e substituir o palhaço, já que não tínhamos tempo hábil para contratar outro e ainda gravar o programa. Não que outra pessoa envolvida em um produção não faria a mesma coisa, mas para um ator, é sempre moleza este tipo de desafio’’, revela.
Para a atriz e produtora cultural Aline Abovsky, da coligação ‘‘Compromisso com Londrina’’, que apoia o candidato Nedson Micheleti, os bastidores de uma campanha são muito parecidos com as coxias de um espetáculo teatral. Uma verdadeira correria!
‘‘É o caos organizado. Durante um espetáculo, o público não sabe a confusão que acontece atrás das cortinas. É gente se trocando, fazendo maquiagem, passando o texto pela última vez. O tempo é contado e, se alguma coisa der errada, só resta a improvisação. A produção dos programas é muito parecida. Trabalhamos com pouco dinheiro, o que aumenta a correria e a necessidade de ser mais criativo, mas o trabalho se parece muito com a montagem de um espetáculo, o que acabou me deixando muito à vontade com tudo’’, revela a atriz.
Aline, que veio de São Paulo para morar em Londrina no começo deste ano e montar uma editora, a Atrito Arte Editora, se entregou de corpo e alma ao novo trabalho. ‘‘Em uma campanha a identificação com o candidato e as propostas são muito viscerais, o que é bem parecido com o teatro. Se você não acredita na personagem, a atuação é ruim. Se não acredita no candidato, é mesma coisa com a produção’’.
Já o ator londrinense Paulo Castro, da coligação ‘‘Amor a Londrina’’, do canditado Luiz Carlos Hauly, acha que campanha é campanha, palco é palco. ‘‘Talvez um diretor teatral possa achar que os bastidores de uma campanha lembre um pouco a produção de um espetáculo, mas para um ator não vejo semelhança alguma. O trabalho de ator é muito mais introspectivo, de construção de personagem, muito solitário mesmo, ao contrário de uma produção de campanha, que exige um forte laço com o grupo e muita disposição para trabalhar em equipe’’, explica.
Para o ator londrinense Paulo Munhoz, da coligação ‘‘Compromisso com Londrina’’ e ator do grupo Nômade Cia. de Teatro, o livre trânsito de idéias é uma das semelhanças que encontra entre a campanha e o teatro. ‘‘No teatro, nossas opiniões sempre são levadas em conta. Um bom diretor é aquele que sabe ouvir todas as propostas e opiniões dos atores. E um bom candidato também. Quem está fazendo a ‘coisa andar’ muitas vezes tem outras respostas e, se o candidato não tiver sensibilidade de notar isto, perde mesmo. Na política isto parece ser igual. É o mesmo exercício de liberdade que o ator está acostumado no palco’’, analisa.
Outra semelhança entre palco e campanha, segundo Munhoz, é a cara-de-pau, um dos maiores ‘‘talentos’’ que uma equipe de artistas pode emprestar para a campanha. ‘‘É preciso cara-de-pau para ser ator, para ser produtor cultural e não é diferente nos bastidores das campanhas. O eleitorado em Londrina este ano está mais exigente devido às denúncias envolvendo a antiga administração, então muita gente não quis nem chegar perto das câmeras na hora de gravar as enquetes de rua. Às vezes, só com muita cara-de-pau é possível resolver isto’’.

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