POLÍTICA COM CRIATIVIDADE
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 27 de setembro de 2000
Iara Rossini Lessa De Londrina Especial para a Folha2 
Em Londrina, artistas e intelectuais trabalham nos bastidores para as campanhas dos candidatos a prefeito. Um experiência que resulta em propaganda criativa, um show para o eleitor
Criatividade rimando com eleição. Em Londrina, uma das características de parte das campanhas eleitorais para os candidatos à prefeitura foi a presença de um grande time de artistas da cidade na produção dos programas para o horário gratuito. Foram eles os criadores deste espetáculo lúdico que foi levado ao ar durante o horário gratuito. Artistas que deixaram um pouco de lado as luzes da ribalta e as alegrias da criação para ir à luta e eleger um candidato.
Para os artistas envolvidos nos bastidores da campanha em Londrina a palavra de ordem é mesmo acreditar. Acreditar nas propostas dos candidatos, vestir a camisa da coligação, respirar, dormir e comer (estes dois últimos ítens com uma frequência não muito saudável) com a antena ligada para não deixar escapar nenhuma idéia.
Para o jornalista e escritor Domingos Pellegrini - autor, entre outras obras, de Terra Vermelha - e redator da coligação Renasce Londrina que faz a campanha de Homero Barbosa Neto, a realidade é melhor que a ficção. Participar de uma campanha, influenciar as idéias dos candidatos, poder transformar todo este material bruto em mensagens para a toda a população é uma experiência única de criação. Uma excelente maneira de participar e se envolver com os problemas e as soluções da sociedade, conta.
Pellegrini, que trabalha diretamente ligado a dois outros atores e uma produtora cultural na elaboração dos programas, se sente em casa com toda a correria que acontece nos bastidores. Gravar imagens, produzir cenários, adequar as falas, editar, fazer músicas, enfim, criar é uma tremenda diversão.
Em clima de campanha o envolvimento é total. Você fica com aquilo na cabeça. Sai, vai conversar com outra pessoa e, de repente, faz uma música, tem uma idéia. Enfim, você nunca desliga, e isto é como escrever um livro, compara Domingos Pellegrini.
Para o jornalista e ator Apolo Theodoro, também em campanha, toda a movimentação dos bastidores é muito semelhante à uma montagem teatral. A idéia é compartilhada pelo também ator Pocka Marques, ambos da coligação Renasce Londrina. A experiência de palco traz uma cumplicidade ótima entre todos os atores envolvidos. Essa mesma cumplicidade também encontramos na produção da campanha. Outro ponto diz questão à disciplina. No teatro a disciplina do ator é fundamental. Você se despe de sua vaidade pessoal e trabalha duro, engole sapo, aceita críticas, tudo para montar o espetáculo. Em uma campanha é igual, acontece todo este processo para você eleger o candidato, contam.
Outra vantagem vista por Marques é a versatilidade dos artistas que fazem os bastidores. Tivemos um problema sério durante a gravação de um dos primeiros programas. Contratamos um palhaço e ele simplesmente não apareceu. No melhor clima o espetáculo não pode parar, tive que vestir a fantasia e substituir o palhaço, já que não tínhamos tempo hábil para contratar outro e ainda gravar o programa. Não que outra pessoa envolvida em um produção não faria a mesma coisa, mas para um ator, é sempre moleza este tipo de desafio, revela.
Para a atriz e produtora cultural Aline Abovsky, da coligação Compromisso com Londrina, que apoia o candidato Nedson Micheleti, os bastidores de uma campanha são muito parecidos com as coxias de um espetáculo teatral. Uma verdadeira correria!
É o caos organizado. Durante um espetáculo, o público não sabe a confusão que acontece atrás das cortinas. É gente se trocando, fazendo maquiagem, passando o texto pela última vez. O tempo é contado e, se alguma coisa der errada, só resta a improvisação. A produção dos programas é muito parecida. Trabalhamos com pouco dinheiro, o que aumenta a correria e a necessidade de ser mais criativo, mas o trabalho se parece muito com a montagem de um espetáculo, o que acabou me deixando muito à vontade com tudo, revela a atriz.
Aline, que veio de São Paulo para morar em Londrina no começo deste ano e montar uma editora, a Atrito Arte Editora, se entregou de corpo e alma ao novo trabalho. Em uma campanha a identificação com o candidato e as propostas são muito viscerais, o que é bem parecido com o teatro. Se você não acredita na personagem, a atuação é ruim. Se não acredita no candidato, é mesma coisa com a produção.
Já o ator londrinense Paulo Castro, da coligação Amor a Londrina, do canditado Luiz Carlos Hauly, acha que campanha é campanha, palco é palco. Talvez um diretor teatral possa achar que os bastidores de uma campanha lembre um pouco a produção de um espetáculo, mas para um ator não vejo semelhança alguma. O trabalho de ator é muito mais introspectivo, de construção de personagem, muito solitário mesmo, ao contrário de uma produção de campanha, que exige um forte laço com o grupo e muita disposição para trabalhar em equipe, explica.
Para o ator londrinense Paulo Munhoz, da coligação Compromisso com Londrina e ator do grupo Nômade Cia. de Teatro, o livre trânsito de idéias é uma das semelhanças que encontra entre a campanha e o teatro. No teatro, nossas opiniões sempre são levadas em conta. Um bom diretor é aquele que sabe ouvir todas as propostas e opiniões dos atores. E um bom candidato também. Quem está fazendo a coisa andar muitas vezes tem outras respostas e, se o candidato não tiver sensibilidade de notar isto, perde mesmo. Na política isto parece ser igual. É o mesmo exercício de liberdade que o ator está acostumado no palco, analisa.
Outra semelhança entre palco e campanha, segundo Munhoz, é a cara-de-pau, um dos maiores talentos que uma equipe de artistas pode emprestar para a campanha. É preciso cara-de-pau para ser ator, para ser produtor cultural e não é diferente nos bastidores das campanhas. O eleitorado em Londrina este ano está mais exigente devido às denúncias envolvendo a antiga administração, então muita gente não quis nem chegar perto das câmeras na hora de gravar as enquetes de rua. Às vezes, só com muita cara-de-pau é possível resolver isto.


