POLIFONIA MILENAR
Antônio Mariano Júnior
De Salvador
Eles vieram de muito longe. Mais precisamente da República Centro-Africana. E em sua primeira visita a um país sul-americano, os Pigmeus do Aka impressionaram a todos pela musicalidade expressada através de vozes, danças e instrumentos rudimentares. A apresentação aconteceu durante o 7º Panorama Percussivo Mundial, que terminou ontem em Salvador. Mas o trabalho desse povo nômade por natureza ainda poderá ser conferido no dia 20, em São Paulo, na segunda etapa do Percpan.
O grupo é composto por 12 pessoas sete homens e cinco mulheres todas pertencentes ao mesmo clã, o Mbonzo. A arte dos Pigmeus do Aka se tornou conhecida há 25 anos através do musicólogo francês Shirha Aron, do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França. Admirado, o pesquisador registrou em disco os cânticos cujas origens remontam desde os tempos dos faraós. São músicas ritualísticas e também outras feitas para ocasiões específicas (caça, colheita e até curas).
Devido ao caráter nômade desse povo, os instrumentos são confeccionados com materiais descartáveis como galhos de árvore, bambus, flautas feitas com talo de marmeleiro ou mesmo tambores construídos com troncos leves. A musicalidade, no entanto, é calcada numa admirável polifonia vocal. Nascemos e morremos fazendo música, diz Regis Sissoko, produtor e único integrante do grupo a falar outra língua (no caso, o francês).
Como conta, a difusão da arte dos Pigmeus do Aka só ganhou força a mais há quatro anos, quando o grupo começou a excursionar mundo afora em países como a Bélgica e Holanda. Queremos que todo mundo conheça a música dos pigmeus, avisa Sissoko.
A comunidade Aka é formada por não mais que 70 pessoas. Os homens têm fama de hábeis caçadores. As mulheres, experientes pescadoras. É por esse motivo que, mesmo mantendo um cordial contato com a civilização, a tribo ainda prefere passar longas temporadas nas florestas, localizadas no sudoeste da África.
Regis Sissoko ressalta que a vida nômade dos Aka passou por algumas revisões de conceito. Ou seja, por alguns meses os pigmeus se instalam ao redor de vilarejos onde até encontram pequenos trabalhos. Mas quando sentem que é chegada a hora de ir à caça, o que ocorre normalmente em temporadas chuvosas, o grupo parte para o meio da mata. E lá permanece o tempo que acharem necessário para fazer uma boa provisão de caça.
E quando se embrenham floresta adentro, a comunicação com eles muitas vezes se torna inviável. Tanto é que o grupo veio desfalcado ao Brasil porque alguns integrantes simplesmente não foram localizados. Um de nossos melhores cantores não foi encontrado a tempo. E a formação mínima para uma apresentação completa é de pelo menos 19 vozes, já que trabalhamos com a polifonia, explica Sissoko.
Mesmo desfalcado, o grupo deixou bem claro que sua cultura pode ser primitiva no termo mais exato da palavra. No entanto, o entrelaçamento vocal, principal característica de seu trabalho, tem muita sofisticação. Não era à toa que os faraós do antigo Egito mandavam buscar os músicos do Aka quando queriam ouvir música de qualidade. E isso não é lenda, garante Regis Sussoko.Os Pigmeus do Aka mostram no Percpan, em Salvador, por que eram escolhidos pelos faraós do Egito para cantar música de qualidade
Xando P./DivulgaçãoOs pigmeus vieram desfalcados: um de seus cantores se perdeu na floresta durante a caçaXando P./DivulgaçãoPertencentes ao clã Mbonzo, os pigmeus cantam e tocam músicas ancestrais





