POLÊMICA Uma palavra que está dando o que falar
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de setembro de 2002
Francelino França<br> Reportagem Local 
Uma situação polêmica invade o meio editorial brasileiro. O conselho editorial da Revista Humanus e os correspondentes internacionais de ascendência judaica entraram com uma representação criminal no dia 12 de agosto, através do Ministério Público Federal, contra os responsáveis pela edição dos dicionários Aurélio (Nova Fronteira) e Houaiss (Ed. Objetiva) da edição da Encyclopédia e Diccionário Internacional W.M. Jackson. (W.M. Jackson). Os responsáveis pela Revista Humanus exigem que a definição da palavra ''judeu'', tal qual consta nos dicionários, seja modificada.
O mais popular dicionário brasileiro Aurélio define judeu como ''indivíduo mau, avarento, usuário, papa-terra''. Já o dicionário Houaiss define como ''pessoa usuária, avarenta'' e o W.M. Jackson atribui à palavra judeu o seguinte sentido: ''Pessoa que professa a religião judaica./ popular: Usurário. / Pessoa de má índole (...).''
A Revista Humanus tem periodicidade anual, abrange os mais diversos assuntos do conhecimento humano e possui sede em Campinas (SP). Segundo argumenta a advogada Tatiana Ferreira Paschoalli, integrante do conselho editorial da Humanus, o objetivo dos dicionários é o de definir o significado das palavras.''As definições estão pejorativas e preconceituosas, atingindo todo o povo judeu. Mas não é só mudar o dicionário. Essa é uma forma de começarmos a mudar o pensamento de quem usa os dicionários'', disse Tatiana Paschoalli, à Folha2, por telefone.
Segundo Tatiana Paschoalli, primeiramente o recurso legal visa a responsabilização criminal contra o povo judeu. E depois, que se obrigue a retirada pejorativa do significado do termo, através de uma lei. O fato de um vocábulo estar dicionarizado pressupõe sua assimilação pelos falantes de uma língua. Há também o fato de que o termo foi aceito e considerado oficialmente como parte integrante do sistema linguístico de um povo. Para a advogada, atribui-se ao conteúdo do dicionário a força de ser reconhecido como expressão da verdade. Isso pode induzir os leitores a considerar os membros da comunidade judaica, de forma generalizada, como maus, usurários e avarentos. ''Tal qualificação é um ato desrespeitoso e desumano contra um povo inteiro e parte do pressuposto que todos os judeus são mau caráter'', defende.
Outro argumento é que os referidos dicionários não incluem em seus conteúdos os preconceitos populares relacionados a outras culturas, não se atribuindo, por exemplo, aos vocábulos português e alemão os significados de burro e chucrutes, respectivamente.
A polêmica surgiu após uma reportagem ''Sionismo x Nazismo'' na segunda edição da revista. A foto de divulgação mostrava a fusão dos rostos de Hitler e Einstein. O estudante de direito de Campinas, José Fernandes Steimberg, entrou com uma representação criminal contra a Humanus alegando que a reportagem tinha uma abordagem nazi-facista. O fato repercutiu porque a revista tem um conselho editorial 50% formado por pessoas de ascendência judaica, como também a maioria dos correspondentes estrangeiros. Tatiana Paschoalli alega que foi uma atitude isolada do estudante, não representando o pensamento dos judeus que realmente leram a reportagem. A partir desse fato, o conselho editorial resolveu trabalhar no intuito de começar a reverter a situação, começando pelas definições existentes nos dicionários que consideram pejorativas.
A reportagem da Folha2 entrou em contato com a Editora Nova Fronteira, no Rio de Janeiro, que detém os direitos de publicação do Dicionário Aurélio. Segundo a assessoria de imprensa, a direção da editora não vai se pronunciar. Para a editora, a função do dicionário é apenas a de registrar as palavras.
Para o advogado londrinense David Schnaid, de ascendência judaica, seria justo retirar esse significado. ''Quem usa com sentido pejorativo é um indivíduo ignorante e racista. Acho que deveriam também mudar palavras derivadas com significado pejorativo, como judiar e judiação'', afirma. Quando Schnaid se depara com alguém que usa esses termos, ele acredita que é por preconceito que ouviu desde pequeno e nem sabe o termo que está usando.
O presidente da Fundação Cultural de Curitiba, Cassio Chamecki, que é judeu, se manifesta a favor da retirada do termo no dicionário. Para ele, a utilização da expressão é ''um resquício anti-semita e exemplo concreto de racismo''. No entanto, ele considera que o termo pejorativo não é usual atualmente entre a população brasileira.
Já o diretor da Revista Top Magazine, Cláudio Mello, também judeu, salienta que o verbete é uma definição religiosa e não possui qualquer conotação relativa a caráter ou personalidade. ''Não é uma questão de julgamento, afinal, como você poderia rotular uma pessoa por suas opções?'', questiona. E complementa: ''Eu acho uma pena que algumas pessoas revertam certos conceitos, utilizados por uma minoria, querendo estabelecer regras de certo ou errado''. Para ele, o preconceito está presente na sociedade, manifestado-se de diversas formas, como a descrita, o que ''cada vez mais é uma postura lamentável''.
(Colaborou Katia Michelle, de Curitiba)


