O Rei não gostou nada de descobrir que estava nu - pelo menos nos detalhes de uma biografia não-autorizada -, contrariando a turba de súditos que aplaudiu de pé a exibição de sua intimidade nas prateleiras das livrarias de todo o País.
''Não li o livro todo, mas as coisas que eu vi e que tenho conhecimento me desagradam muito. Para começar, é não-autorizada. Tem coisas não-verdadeiras, que ofendem a mim e pessoas queridas, expostas ao ridículo. É um absurdo, uma falta de respeito lançar mão da minha história, que é um patrimônio meu. Me sinto agredido na minha privacidade. isso me irrita, me incomoda, me entristece'', vociferou, em entrevista coletiva de lançamento do DVD ''Duetos'', um Roberto Carlos bem diferente daquele romântico apaixonado e que manda flores para a platéia no final dos shows.
O ídolo brasileiro não é o único a desejar que os autores de biografias não-autorizadas queimem junto com os livros. Escritores, como Ellis Amburn, especialista no gênero, deve ter ficado com as orelhas bem quentes pela indignação de Richard Burton, ex-namorado de Elizabeth Taylor, descrito pelo escritor como gay em uma biografia.
Ao contrário de ''Estrela Solitária - Um Brasileiro Chamado Garrincha'', de Ruy Castro, que foi proibida antes mesmo de chegar às livrarias, a biografia ''Roberto Carlos em Detalhes'', escrita por Paulo César Araújo, chegou primeiro nas mãos dos leitores até que o Rei entrasse na Justiça, culminando no acordo em que a editora Planeta interromperia a impressão e a venda do livro, recomprando os exemplares já distribuídos num prazo de 60 dias, sendo que Roberto Carlos poderá comprar quantos exemplares encontrar, com ressarcimento da editora pelo dinheiro gasto até o limite de R$ 2 mil mensais por um período de 12 meses, mediante apresentação de nota fiscal.
Em artigo publicado na Folha de S. Paulo, Paulo Coelho foi um dos que saíram em defesa de Araújo e, como outros autores, enxergou uma sombra de censura se levantando às margens da polêmica.
Para a escritora e professora londrinense dos cursos de Jornalismo da Universidade Estadual de Londrina(UEL) e Universidade Norte Paraná (Unopar), Karen Debértolis, a nudez do Rei ao ser biografado pode corresponder a um trabalho sério de pesquisa, o que deve ser levado em consideração quando o assunto é biografias não-autorizadas.
''O Roberto Carlos é um artista que sempre preservou a sua privacidade, principalmente as coisas complicadas da vida dele. Por outro lado, se esse trabalho de pesquisa do autor tem uma consistência de uma pesquisa séria, com a checagem de entrevistas, precisa ser respeitada pelo biografado. As biografias autorizadas ou não são assuntos recorrentes e dependem muito da postura do artista se vai ou não se sentir desnudado, podendo ou não tomar alguma atitude contra o autor. Não sei se seria uma forma de censura. Se a gente for ver do ponto de vista do escritor, que faz uma pesquisa, pode até ser, mas se observarmos através do ponto de vista do biografado, que não concorda com a exposição dessa forma, poderíamos dizer que tem o direito de se opor'', afirma Karen, acrescentando que a atitude de Roberto Carlos em querer a retirada dos livros das prateleiras não surpreende.
A escritora abre espaço no gênero para colocar as biografias, que são produzidas com informações sensacionalistas, tentando cavoucar o que existe de exótico e até bizarro na vida de celebridades - um produto que vende facinho, facinho.
Do outro lado dessa estante, Karen expõe os argumentos para uma boa biografia: ''Se a biografia não-autorizada traz uma apuração correta, que se apoie em entrevistas interessantes e que constrõem a vida do biografado acho válida'', avalia Karen.
O jornalista londrinense, colunista da Folha de Londrina, Marcos Losnak leu o livro e não encontrou nada de que um Rei desnudado pudesse se envergonhar. ''Não é um livro sensacionalista, que conta um monte de fofoca. Roberto Carlos criou uma coisa que ele quer ter controle absoluto sobre as informações da vida dele, tendo um livro sobre a própria vida em que quer dar a sua visão oficial'', ressalta o jornalista.
Losnak afirma que nesse caso, a palavra ''censura'' não é uma roupa que veste bem Roberto Carlos, lembrando que nos Estados Unidos existem zilhões de biografias não-autorizadas e nenhuma proibida, mas que no Brasil o buraco é mais embaixo, já que o País não tem essa tradição.
''É um gênero que tem bastante interesse e que possui leitores fiéis. Todo mundo presta atenção. É um mercado inesgotável'', afirma Losnak, acrescentando que as biografias possuem a capacidade de transformar os autores em milionários - o que parece não ter sido o objetivo principal de Araújo, que chegou a abrir mão dos direitos autorais para que Roberto Carlos liberasse a obra e, mesmo assim, o Rei bateu o pé em contrário.

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