Polêmica na área de preservação do patrimônio cultural
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terça-feira, 09 de março de 1999
Por Maria Hirszman 
São Paulo, 10 (AE) - Uma forte polêmica vem agitando a comunidade de profissionais da área de preservação do patrimônio cultural. Isso ocorre desde que Nathalie Volle, conservadora-chefe do Centro de Pesquisa e de Restauração dos Museus da França (organismo que coordena toda a conservação dos museus públicos do país), enviou ao Brasil um fax virulento no qual afirma que o brasileiro Flávio Capitulino não tem a capacitação técnica que lhe vem sendo atribuída.
A informação caiu como uma bomba, já que nos últimos meses o conto de fadas da vida de Capitulino vem sendo explorado com grande destaque pela mídia brasileira, contente em poder veicular o caso do paraibano que chegou a Paris com apenas US$ 60 no bolso e se transformou num dos mais renomados restauradores da capital francesa.
Capitulino recebeu a notícia indignado e está preparando seu dossiê de defesa. Ele afirma que pretende processar quem o está difamando. "Muita coisa foi dita e as pessoas interpretam os fatos da forma como querem", ressalta. "Sempre disse que era um padeiro e que dancei lambada na frente do Beaubourg". Ele descobriu sua profissão meio por acaso. Trabalhava na casa de uma mulher que tinha uma mesa de laca chinesa que estava com problemas e se ofereceu para repará-la. Após muita insistência conseguiu restaurar a peça e ganhou um jantar em agradecimento. Lá estava uma curadora do Louvre - ele prefere não citar nomes - que o apresentou a Edouard Dechelette, o restaurador com quem trabalhou nove anos e que lhe ensinou a arte da conservação. Até esse ponto não há discordâncias. A própria mme. Volle reconhece que Capitulino trabalhou como assistente de um de seus restauradores de suporte-tela.
Mas sua carta se refere a uma consulta específica, encaminhada pela Associação Brasileira de Conservadores e Restauradores de Bens Culturais (Abracor). Enquanto se acumulavam notícias sobre o seu trabalho (com entrevistas veiculadas por programas importantes como "Fantástico" e "Jô Onze e Meia"), afirmando que ele teria sido restaurador do Louvre e trabalhado sobre telas de mestres como Gauguin, Picasso e Degas, os integrantes da associação - que já existe há 19 anos - continuavam sem nenhuma informação consistente sobre sua formação e decidiram pedir a ajuda da especialista francesa depois do anúncio de dois projetos que Capitulino estaria desenvolvendo no País: a restauração de uma igreja do século 18 em sua cidade natal, Souzas (PB), e a apresentação de um curso-relâmpago em São Paulo, com apenas 15 dias de duração.
Segundo os amigos do restaurador, essas dúvidas são alimentadas por quem tem inveja de seu sucesso. Já Nathalie Volle afirma: "É preciso, pois, dissuadir muito rapidamente as instituições brasileiras de fazer apelo a seus serviços, a fim de proteger o patrimônio artístico nacional e respeitar os restauradores que seguiram uma verdadeira formação".
O restaurador conta que decidiu tomar uma atitude com relação à situação de abandono da igreja que costumava frequentar quando criança, na qual há uma pintura mural de grande valor histórico, depois que um jornalista lhe perguntou o que ele estava fazendo pelo patrimônio brasileiro. A questão que fica no ar é se ele tem condições de fazê-lo. Para mostrar que seus detratores estão errados, Capitulino mostra uma carta do conservador-chefe do patrimônio da cidade de Paris, Georges Brunel, atestando suas qualidades de restaurador.
Além do aspecto técnico, que pode acarretar danos irreversíveis ao patrimônio, a Abracor anuncia que o fato de a igreja estar abandonada não justifica a decisão. Segundo o vice- presidente da associação, Júlio Moraes, a primeira coisa a se fazer seria requerer o tombamento do bem e mobilizar a sociedade. "A atitude paternalista é uma das principais responsáveis pela deterioração do nosso patrimônio", afirma.
A questão do curso oferecido a três turmas de 15 alunos durante 15 dias em São Paulo também é bastante grave. Segundo a Abracor, essas pessoas terão a ilusão de que vão conseguir uma especialização em curtíssimo espaço de tempo. Moraes critica a irresponsabilidade de colocar na mão de leigos um kit de tintas e solventes que podem até trazer riscos para a saúde.
Capitulino defende-se afirmando que só quer transmitir aos outros uma pequena parte do que teve a oportunidade de aprender e que jamais prometeu formar restauradores. O problema é que, como costuma acontecer no País, o panfleto de divulgação do curso promete um pouco mais do que oferece.
Essa confusão tem pelo menos um mérito: o de provocar um debate sobre questões importantes e delicadas para a preservação do patrimônio cultural como o ensino e a regulamentação da profissão, assim como os cuidados que devem ser tomados quando da restauração de um bem público.


