Polémica na adopção da nova ortografia
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Adriana Ito<br>Reportagem Local 
''Jornais brasileiros adoptam a partir de hoje novas regras ortográficas'', dizia o título da matéria da agência Lusa, de Portugal, no primeiro dia do ano. A partir daí já se vê que, mesmo com a reforma ortográfica, que tem até 2012 para ser completamente ''adoptada'' pelo Brasil, a unificação da língua portuguesa entre os dois países ainda está bem longe de se tornar um ''facto''.
A justificativa de se unificar a ortografia é fundamentada no fato de o português ser a única língua (pelo menos entre as mais conhecidas) que adota duas ortografias diferentes. O inglês e o espanhol, embora tenham lá suas diferenças, preservam a mesma grafia. ''Na França é bem nítida a diferença entre o francês do Norte e o do Sul. A diferença de pronúncias faz com que uma mesma palavra signifique vinho e vento, dependendo da região'', exemplifica o idealizador e coordenador do disque-gramática da Universidade Estadual de Londrina, Joaquim Carvalho da Silva, acrescentando que, embora essas diferenças sejam motivo de chacota entre cidadãos de diferentes regiões francesas, jamais se cogitou unificar o idioma. ''Mesmo porque os franceses não aceitariam. Eles são muito ciosos de suas coisas e de sua língua, que usa a mesma ortografia de 100 anos atrás'', compara.
Essa valorização é merecida porque uma língua é muito mais do que apenas um instrumento para verbalizar algo. Ele é um registro vivo e em movimento de uma sociedade. A forma como os costumes e os valores desenvolveram-se com o tempo fica implícita no modo como as pessoas conversam em seu dia-a-dia - daí as diferenças, presentes mesmo dentro de um mesmo país. ''A língua é dinâmica, e seu enriquecimento é consequência desse dinamismo. Podem até igualar o idioma, mas daqui a algum tempo isso já estará sendo modificado'', prevê o professor, que também leciona literatura portuguesa.
Silva lembra que Portugal (que tem seis anos para a implantação) ainda apresenta certa resistência em relação ao acordo. ''Conversei com um professor de Coimbra, e ele me contou que lá eles passaram anos discutindo, fazendo reuniões. No Brasil, ninguém tomou conhecimento. Foi feito de maneira irresponsável'', critica, admitindo porém que, para ele, não haveria jeito de fazer uma reforma bem-feita, já que não concorda sequer com a unificação da língua portuguesa.
Na prática, uma única ortografia deve reduzir o trabalho de órgãos oficiais e internacionais, como a ONU, que poderá redigir um documento em uma única versão portuguesa. Mas quem mais ganha com a reforma? ''Socialmente, ela não acrescenta nada aos indivíduos, em suas conversas. Haverá um prejuízo grande por parte dos estudantes e de quem trabalha com isso, que precisarão fazer cursos e ter revisores bons. Quem vai lucrar são os livreiros. Mas mesmo eles terão seu prejuízo, porque muita coisa vai ser perdida'', analisa Silva.
O professor critica ainda algumas regras alteradas pelo acordo aparentemente sem uma justificativa plausível. ''Querem aperfeiçoar, mas chega a um ponto em que se começa a regredir. A eliminação do trema, por exemplo, foi uma regressão. Ele não estava ali à toa; era um índice de que o u tem que ser pronunciado'', comenta, lembrando outro ponto importante: a diferença de significados das mesmas palavras em países diferentes.
Outro fator a se considerar é que, em um sistema de ensino que tira notas baixíssimas (no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2007, as notas foram 4,2 na quarta série do ensino fundamental, 3,8 na oitava série e 3,5 no Ensino Médio), as novas regras da ortografia provavelmente não vão significar nada para os milhares de alunos que ainda precisam aprender corretamente o bê-a-bá. ''Por que não dispenderam esse tempo e esse dinheiro em programas que aprimorassem a alfabetização primeiro?'', questiona o docente.
Assim, o carácter de unificação dessa mudança é polémico, as regras não primam pelo didactismo e têm sido de difícil adopção, pois.


