POLÊMICA Hollywood vai à guerra
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de março de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Alinhando títulos, nem tão aleatoriamente assim: ''Sem Novidades no Front'', ''Glória Feita de Sangue'', ''Três Dias do Condor'', ''A Trama'', ''Plattoon'', ''Amargo Regresso'', ''Apocalypse Now'', ''Doutor Fantástico'', ''Uma Arma para Johnny'', ''Nascido para Matar''. Realizados cada um em seu tempo de maneira então já não muito confortável pelas implicações de denúncia e/ou pacifistas, são filmes agora inimagináveis na vigente conjuntura hollywoodiana. Não nesta Hollywood, que já em 2000 havia contribuído com assustadora generosidade para os fundos de campanha de George W. Bush. A partir dos atentados de 11 de setembro, a capital da mais poderosa indústria do entretenimento vem manobrando mais à direita, e a rigor explicitando a escalada ideológica ianque que sempre inoculou sub-repticiamente nas platéias planetárias. Agora, nem mesmo resta inteiro o tradicional viés progressista que havia meio século insistia em sobreviver como uma espécie de romântica resistência democrata ao grosso calibre republicano. Agora, os conservadores ''saíram do armário'' e já redesenham o novo perfil da indústria e o rumo dos principais projetos.
Não se recorda, desde os tempos da Segunda Guerra Mundial, de tal estreitamento de relações entre Hollywood e Washington. Há até uma linha telefônica vermelha, direta e sem interferências como aquela mitológica entre a Casa Branca e o Kremlin - hoje posta em desuso pelo flagrante desequilíbrio na balança mundial de forças -, conectando alguns altos executivos dos estúdios a Karl Rove, um dos principais conselheiros de George W. Bush. Não há qualquer dúvida de que os republicanos souberam tirar o máximo proveito da tragédia de 11 de setembro, sobretudo a partir de uma considerável quantidade de filmes bélicos (e belicistas). O próprio presidente manobrou pessoalmente esta tendência, convidando para projeções especiais em seus domínios o ator Mel Gibson e o diretor John Woo, respectivamente intérprete principal e diretor de ''Fomos Heróis'' e ''Códigos de Guerra'' - pela ordem, a reconstituição de uma ''heróica'' batalha no Vietnã e a tentativa de ''mea culpa'' com os índios Navajo, inventores de um código de comunicações que os japoneses jamais conseguiram interceptar durante a Segunda Guerra Mundial. Consta ainda que Bush Jr. chegou às lágrimas com ''Falcão Negro em Perigo'' e ''Atrás das Linhas Inimigas''.
Esta manipulação oficial encontraria respaldo na opinião pública, que hoje se mostra amplamente favorável a filmes que focalizem atos heróicos em defesa do país e ferozmente contra proclamações políticas de reconhecidos atores democratas e progressistas como o casal Tim Robbins-Susan Sarandon, Martin Sheen, Jéssica Lange, Sean Penn, Warren Beatty, Jane Fonda e Alec Baldwin. Na recente e tristemente ressuscitada caça às bruxas, Baldwin é o mais visado, depois da afirmação de que os fatos de 11 de setembro deveriam ser considerados como ataques à democracia com as mesmas consequências que teve a fantasmagórica recontagem de votos da Flórida, votos que garantiram a apertada vitória de Bush sobre o democrata Al Gore.
A se consumar a iminente invasão ao Iraque - e a agressão parece inevitável, já que Saddam Hussein é o (rico) inimigo mais à mão para pagar a gorda fatura contraída por Bin Laden -, Hollywood deverá afinar ainda mais a sintonia com os ecos dos campos de batalha. O problema vai ser produzir e maquiar argumentos para se obter um mínimo de credibilidade, contrapondo dois exércitos em total, transparente disparidade. Mas é sempre bom recordar o Vietcong e sua imortal armada Brancaleone. Neste caso, realizadores independentes poderiam gerar frutos tão bons e didáticos quanto aqueles de Coppola e Oliver Stone


