Hollywood está em pé de guerra. Notícia de uma agência informa que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas está querendo criar novas normas éticas para os votantes do Oscar, preocupada com o que se afigura cada vez mais como a manipulação da vontade dos eleitores por marqueteiros. O estopim foi a campanha deste ano da Miramax para ''Gangues de Nova York''. O tiro terminou saindo pela culatra e o filme de Martin Scorsese, recordista de indicações, não recebeu nem um prêmio de consolação. Mas a Miramax foi muito criticada por enviar aos eleitores, como se fossem de Scorsese, apelos criados em agências de publicidade.
A academia ainda não definiu as novas regras, mas já se sabe que filmes poderão ser desclassificados por suas campanhas publicitárias. Tal é a medida anunciada pelo presidente da academia, o roteirista e diretor Frank Pierson, preocupado com a possibilidade de que as campanhas coloquem em risco a isenção dos eleitores e a credibilidade do prêmio. O assunto provoca reações diversas, mesmo que, no fundo, todo mundo esteja de acordo com Pierson. Existem sutilezas, porém.
Fernando Meirelles é a favor de que se criem normas de ética em qualquer
circunstância. Na política, na publicidade, na vida por que não na academia? Entre dezembro e janeiro, ele ficou um mês em Los Angeles, batalhando por uma possível indicação de ''Cidade de Deus'' para o prêmio de melhor filme estrangeiro. Impressionou-se com o poderio econômico. ''São páginas e páginas de anúncios de filmes 'for your consideration' para a consideração dos acadêmicos, como eles dizem , induzindo os votantes a escolher determinados filmes.''
Hector Babenco, que é votante e no próximo ano espera estar no Oscar com ''Carandiru'' a distribuidora Sony vai retardar a estréia para janeiro, nos EUA, na expectativa de que o filme seja indicado pelo Brasil para concorrer ao prêmio -, diz que não é louco para ser contra normas de ética, mas numa economia de livre mercado ninguém pode impedir que uma empresa privada como a Miramax exerça seu poderio de fogo para promover os filmes que produz. Se fizermos isso, ele adverte, teremos de repensar todo o mundo, tal como está organizado nesta era pós-globalização.
O diretor de fotografia Lauro Escorel, de vários filmes de Babenco e, ele próprio, diretor de ''Sonho sem Fim'', faz uma análise interessante. ''Quando vivia em Los Angeles, conseguia perceber como se ia formando, ao longo do ano, um consenso a respeito dos destaques da temporada. A comunidade cinematográfica pode escolher o que valorizar motivada tanto por fatores externos a ela (uma guerra, por exemplo) quanto por fatores internos (a possibilidade de reconhecimento a um profissional veterano). Se a academia está se colocando a questão, deve ser por sentir que seus formadores de opinião estão sendo influenciados pelas grandes campanhas publicitárias (um fator externo) e isto é certamente uma tentativa de buscar preservar o prestígio de seu prêmio.''

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