Polêmica das cotas raciais chega aos palcos
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domingo, 18 de novembro de 2012
Marcos Roman<br>Reportagem Local 
A polêmica envolvendo o sistema de cotas raciais vai sair do ambiente acadêmico para ganhar os palcos do país. O debate sobre a política afirmativa criada pelo governo federal visando reparar a desigualdade entre brancos e negros ganha um novo capítulo esta semana. No Dia da Consciência Negra (terça-feira, dia 20), os holofotes estarão voltados para um edital que o Ministério da Cultura (MinC) lançará sobre recursos públicos que serão destinados exclusivos a produtores e criadores negros.
A iniciativa visa contemplar produções culturais que abordem a temática "afrodescendente". A ministra de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Luiza Bairros, afirmou à imprensa que o objetivo é favorecer os valores culturais de "matriz africana". Segundo ela, existem muitos grupos de teatro e dança que se autodefinem como negros e que raramente se beneficiam de recursos públicos em comparação com outras manifestações culturais.
A tese da ministra é reforçada pela mestre e doutora em Sociologia Maria Nilza da Silva, professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e ex-coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos da instituição. "Apesar do preconceito em relação aos negros ter diminuído após a adoção de medidas afirmativas, as manifestações da cultura negra ainda são vistas como algo folclórico e exótico. Isso porque ao longo da história não houve a devida valorização da cultura afro-descendente", contextualiza.
Na avaliação dela, uma das formas de corrigir essa falha é a implementação da Lei 10.639, que obriga as escolas a adotarem o conteúdo da história afro-brasileira. "Essa lei foi criada em 2003, mas até hoje ainda há barreiras para sua implementação. Infelizmente, muito alunos negros têm vergonha de seus antepassados porque a história só narra o período da escravidão. Poucos sabem que nem sempre foi assim. Ao narrar a trajetória de líderes africanos que lutaram por seus povos essa percepção deve mudar, fazendo com que os afrodescendentes tenham orgulho de sua própria história", argumenta.
Prestes a lançar um livro que fala sobre a presença dos negros em Londrina, Maria Nilza diz se espantou com algumas atitudes discriminatórias que acontecem na cidade. "A pesquisa faz parte da minha tese de doutorado. A ideia de abordar o tema surgiu da constatação de que a presença do negro na cidade é lembrada apenas pela memória da própria população negra. Existe uma espécie de culto aos pioneiros da "Pequena Londres"; contudo, desde a minha chegada à cidade, em abril de 1998, noto que estes são sempre e somente representados por pessoas brancas", contata a professora de Sociologia.
Maria Nilza diz que outro fato que chamou sua atenção foi a falta de acesso à cultura que a população negra enfrenta. "Mesmo em eventos gratuitos, como nos concertos que eram realizados no Teatro Ouro Verde, a presença da comunidade negra sempre é menor em relação aos brancos. Isso se deve à dificuldade de acesso à informações e também porque os negros geralmente moram em bairros periféricos afastados e muitas vezes não têm condições financeiras para se locomover até o centro da cidade", afirma.


