A uma semana da abertura do 55º Festival de Cannes, o filme ‘‘L’Ora di Religione/Il Sorriso di Mia Madre’’ é o centro de uma polêmica que mobilizou a alta cúpula da Igreja Católica. Desde que estreou nas salas italianas, há uma semana, o mais recente trabalho do veterano e sempre controvertido realizador Marco Bellocchio não deixou de frequentar as manchetes dos principais veículos da mídia, impressa e eletrônica.
O drama, também escrito pelo diretor, fala de um artista plástico, ateu convicto, cuja paz de espírito é comprometida quando sua família quer envolvê-lo numa campanha promovida pelo Vaticano para beatificar a mãe dele, que morreu assassinada. Os comentários que o filme faz sobre a hipocrisia que cerca o Catolicismo, e as secretas, maquiavélicas maquinações que invadem a vida familiar receberam duras críticas da influente organização dos bispos do país, a Conferenza Episcopale Italiana (CEI).
‘‘Bellocchio não mostra nenhum sinal de progresso desde 1964, quando estreou com ‘De Punhos Cerrados’’, disse o porta-voz da CEI no texto que comenta e condena o filme. ‘‘A sistemática destruição da família e dos valores religiosos permanecem como seu único e preferido alvo, mesmo no terceiro milênio’’. Bellocchio respondeu enfatizando que o drama deve ser entendido como uma tragédia familiar e não uma denúncia da Igreja, como foi interpretado por alguns críticos católicos. O diretor declarou que respeita o direito da CEI quanto a criticar o filme, mas não de questionar sua inclusão na lista dos concorrentes do Festival de Cannes.
Lançado semana passada em 70 salas das principais cidades da Itália, ‘‘L’Ora di Religione’’ recebeu classificação restritiva para o público menor de 14 anos por ‘‘uso de linguagem blásfema e profana’’. Quando à atuação da censura oficial, Bellocchio não deixou por menos, argumentando que ‘‘a violência gráfica e o sexo nos filmes americanos que dominam o mercado não recebem nenhuma restrição’’. Diversos críticos e intelectuais europeus se posicionaram a favor de Bellocchio, definindo como ‘‘inaceitáveis’’ as críticas e pressões dos bispos da CEI.
Marco Bellocchio, 63 anos, é um contestador histórico, e sua estréia com o clássico ‘‘De Punhos Cerrados’’ não deixava de ser profética sobre os acontecimentos de maio de 68.
O universo repressor da religião, simbolizada num colégio jesuíta, foi o tema do melhor filme de sua carreira, ‘‘Nel Nome del Padre’’, de 1970. A polêmica maior ficou por conta de ‘‘O Diabo no Corpo’’, de 1986, sobre arrependimento e redenção, e com uma famosa cena de felação explícita. Nos anos 90 Bellocchio parece ter chegado a um beco sem saída, sem muito o que dizer. ‘‘Il Sogno de la Farfalla’’, exibido no Festival de Gramado em 95, ‘‘Il Principe di Homburg’’ (Cannes-97) e ‘‘La Balia’’ (Cannes-99) são provas dessa encruzilhada.
Esta é a segunda vez este ano, e em menos de três meses, que cinema e Igreja Católica se desentendem. Em fevereiro, Costa-Gavras e seu ‘‘Amen’’ agitaram o Festival de Berlim. Em seguida lançado na Europa, o filme dividiu opiniões a partir de uma velha ferida que atormenta a Igreja - a acusação ao Papa Pio XII, que durante a Segunda Guerra teria se omitido diante dos crimes cometidos pelo III Reich.

mockup