POLÊMICA - Uma imagem sem altar
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de julho de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba Não são apenas a origem e a autoria os únicos mistérios que permeiam a imagem de São Francisco de Assis, encontrada no Rio Iguaçu, durante a limpeza do óleo que vazou da Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), subsidiária da Petrobras, em julho de 2000. A outra dúvida que ronda a escultura em madeira, descoberta depois de um dos acidentes ecológicos mais graves registrados no Paraná, se refere ao direito de propriedade da imagem. A Petrobras está arcando com os custos de restauração e pesquisa da escultura, mas sabe que a imagem encontrada no rio pode ser do governo federal. A Secretaria de Estado da Cultura, por sua vez, também já manifestou interesse em ficar com a bela escultura de cerca de 1,30 metro de altura.
Enquanto o impasse não se resolve, a imagem está sob responsabilidade da restauradora Suely Deschermayer, também funcionária da Secretaria de Estado de Cultura. Ela foi indicada para cuidar da escultura logo depois que a imagem foi encontrada, no dia 20 de julho de 2000, quatro dias depois do acidente. Depois de ser tirada do rio, em meio ao óleo e aos entulhos, a imagem ficou na Petrobras por cerca de 15 dias, até ser encaminhada para a restauradora. Na época, Suely prestava serviços para a Coordenadoria de Patrimônio Cultural da secretaria e a imagem foi encaminhada para lá para receber o tratamento necessário.
''Um acordo informal com a Lúcia Camargo (na época secretária da Cultura) definiu que a imagem ficaria nas dependências da secretaria'', conta Suely. Na ocasião, a então secretária já havia demonstrado interesse no patrimônio, mas nada que envolvesse custos.
Os investimentos dedicados à imagem, que vão desde uma pesquisa apurada para conhecer a sua origem, autoria e idade, até a limpeza e restauração da escultura, estão sendo arcados integralmente pela Petrobras. A empresa estima que até o final do trabalho, terá pago R$ 23 mil reais para conhecer um pouco mais sobre a imagem e também vê-la limpa e conservada.
A escultura permaneceu pouco menos de dois anos na secretaria, no prédio onde hoje está construído o anexo do Museu Paranaense. Quando o antigo edifício foi demolido e as obras do atual começaram, em 2002, a escultura foi transferida para o Ateliê Arte e Restauro, de propriedade de Suely. Hoje, a imagem que tem parte das pernas e dos braços destruída, mas ainda revela traços impecáveis está submersa em água, numa espécie de aquário instalado no ateliê. ''Não sabemos quanto tempo essa imagem ficou dentro do rio, mas ela estava passando por um processo de ressecamento que está sendo interrompido com esse tratamento'', explica a restauradora.
Ela revela que o complexo processo a que está sendo submetido a imagem é inédito do Paraná. Além da restauração, está sendo realizada uma pesquisa apurada que deve revelar alguns dados da sua origem. Pouca coisa se descobriu até agora. Sabe-se, por exemplo, que a madeira em que foi esculpida a bela imagem é de uma Sapopema, árvore natural da Mata Atlântica. Só não se sabe de qual região do País.
Todos os dados referentes à escultura, desde os que apontam a sua origem, até o processo de restauração pelo qual a peça está passando, devem integrar um relatório técnico final que Suely pretende transformar em livro. O projeto já está inscrito na Lei Rouanet, lei federal de incentivo à cultura, e aguarda aprovação.
Outro livro, este menos técnico, sobre a descoberta da imagem, também está sendo produzido. O autor é o administrador da área de planejamento da Petrobras, Odilon Oscar Sottomaior Macedo. Apesar de trabalhar numa área técnica na empresa, Macedo estava realizando trabalho de campo naquele julho de 2000, ajudando na limpeza do Rio Iguaçu. Ele foi uma das primeiras pessoas a ver a imagem junto aos entulhos resgatados do rio, a cerca de 35 quilômetros da Repar, em Araucária, Região Metropolitana de Curitiba.
''O encontro da imagem foi uma coisa muito mística, repleta de significados'', diz Macedo. Ele lembra que São Francisco de Assis é um santo relacionado à proteção da natureza e que a imagem foi encontrada quatro dias depois do acidente, dia da canonização do santo.
''O livro vai contar essa história e também fazer alguns questionamentos, como por exemplo: de onde apareceu a imagem, quem é o autor e há quanto tempo ela estava no rio ?'', adianta o funcionário da Petrobras. Mas tudo com um mote meio religioso que ele já utilizou na sua primeira obra, ''Magia da Ilha do Mel'', ainda sem editora. O livro sobre São Francisco vai ganhar o nome de ''São Francisco do Iguaçu'' e, por enquanto, é independente dos dados técnicos que estão sendo levantados sobre a escultura.
A restauração da imagem foi uma orientação da antiga presidência da Petrobras, na época do acidente, e também foi uma das formas encontradas pela empresa de amenizar os danos causados ao ambiente. Antes da imagem ser submersa em água, para evitar o ressecamento da madeira, foram feitas duas réplicas em fibra de vidro que estão na empresa e na comunidade próxima onde a imagem foi encontrada.
Depois de todo o processo de restauração concluído, situação que deve durar mais um ano e meio, a empresa deve procurar orientação legal para saber com quem fica a imagem, se com o governo federal, estadual ou com a própria Petrobras. Só depois de resolvido o impasse é que deve ser definido o local em que a escultura em madeira será instalada, para finalmente, receber a devoção do público.


