São Paulo, 02 (AE) - É um negócio que já movimentou, somente nos Estados Unidos, mais de US$ 2 bilhões. Calcula-se que, até o fim do ano, serão US$ 6 bilhões em todo o mundo. "Pokémon - O Filme, que chega na sexta-feira aos cinemas brasileiros, é mais do que um desenho para crianças. É um fenômeno que, a partir do Japão, vem fazendo a festa dos baixinhos em todo o mundo. Por isso mesmo, o produtor Norman J. Grossfeld está rindo à toa. Falando de Los Angeles por telefone com a reportagem, ele enumera dados que apontam "Pokémon - O Filme como um marco na história da animação.
Nada a ver com criatividade. A qualidade técnica do desenho não deve preocupar os executivos da Disney, mas os números com certeza já repercutiram no império criado pelo pai de Mickey. Lançado em 3 mil cinemas americanos, Pokémon quase dobrou a arrecadação, no primeiro dia, de "O Rei Leão". Em cinco dias atingiu quase US$ 51 milhões, o melhor desempenho para um desenho animado de toda a história de Hollywood.
Grossfeld não cessa de elogiar seus parceiros japoneses, leia-se a Nintendo, que iniciou a febre em 1996, ao introduzir o software Pocket Monster, pequeno monstro, que deu origem ao nome Pokémon, na sua série de videogames portáteis, os chamados Game Boys. Criado por Satoshi Tajiri e Tsunekazu Ishihira, o game rapidamente passou a liderar o mercado de jogos eletrônicos do Japão, um dos mais competitivos do mundo. Daí saltou para a televisão (no Brasil, é apresentado pela Record no programa de Eliana) e, agora, para o cinema.
No caso, Grossfeld nem precisou se preocupar em criar o desenho. Ele comprou, por US$ 5 milhões, o desenho japonês de Kunihiro Yuyama e o adaptou para o gosto americano, numa versão remontada (por ele e Michael Haigney) para o Ocidente. Essa nova versão é a que será lançada no Brasil. A distribuidora Warner parte de um circuito mínimo de 200 salas, que espera ampliar para 300, mesmo que seja preciso retirar pontos de exibição de outras duas atrações voltadas para o público infantil - "Xuxa Requebra" e "O Trapalhão e a Luz Azul". Com medo da concorrência pesada, até "Castelo Rá-Tim-Bum - O Filme", inicialmente previsto para estrear no dia 7, teve a sua ida para os cinemas antecipada em uma semana.
Para o produtor, o segredo do sucesso é simples. "Criança é colecionadora por natureza; adora colecionar coisas", diz Grossfeld. Há muito o que colecionar. Afinal, os pequenos monstros são em número de 150, com nomes estranhos como Pikachu, Dodrio, Gengar, Spearow, Chansey e muitos outros. Como se não bastassem todos esses bonecos, a febre já atingiu outras formas. Não apenas está espalhada por jogos eletrônicos, bonés, relógios, chaveiros, mochilas e toda uma parafernália de objetos
incluindo o CD, que está chegando às lojas, como também foi metamorfoseada em figurinhas que fazem a delícia da garotada. "Além disso, agradam tanto a meninos quanto a meninas", acrescenta Grossfeld, que vê nessa aceitação ampla a chave para o sucesso.
Prisioneiros da esfera - Pokémons são criaturas de vários tamanhos e poderes especiais que coexistem com os humanos. A aventura começa na cidade de Pallet, quando os meninos e meninas atingem a idade de 10 anos e ficam liberadas para tornar-se aprendizes de pokémon. Recebem para isso uma Pocket Ball, esfera que aprisiona o pokémon para que o aprendiz possa treiná-lo até ser reconhecido como mestre pelos pequenos monstros. O protagonista é um menino chamado Ash, cuja meta é capturar todas as criaturas e tornar-se o maior treinador de pokémons da história.
Não adianta insistir porque Grossfeld foge a toda polêmica. Acha um absurdo quando se diz que o desenho é violento ou antiecológico. Afinal, a garotada aprisiona os bichinhos na tal esfera, o que é um cerceamento da sua liberdade. "Tolice, é só um brincadeira que traz como resultado o amadurecimento da criança e a sua transformação de aprendiz em mestre", responde. Em muitas situações, o que ressalta é o cuidado dos personagens com seus bichinhos.
Grossfeld prefere falar sobre o que lhe parecem ser as características mais marcantes (e positivas) do fenômeno. "A estrutura do desenho é bem maniqueísta e acessível às crianças; e, depois, os monstrinhos têm um encanto todo especial, são muito carismáticos." Refutando a acusação de violência, argumenta que ela faz parte do universo infantil e chega a provocar, afirmando que Tom & Jerry são muito mais violentos e os pais adoram.
Ele não se furta a comentar um dos aspectos mais controversos da febre. Em 1997, após o lançamento do desenho animado no Japão, cerca de 700 crianças foram hospitalizadas depois de assistir a um dos episódios na TV. Elas sofreram ataques provocados pela explosão de flashes luminosos, em golpes desferidos contra Pikachu, o mais amado dos pokémons, e sua turma. Foi a primeira vez que se ouviu falar em Pokémon nos Estados Unidos e não de uma forma lisonjeira.
"Houve uma campanha negativa de marketing, mas a mania não apenas conseguiu sobreviver como até aumentou a curiosidade pelo fenômeno." Grossfeld acha que uma coisa dessas não poderia ocorrer no Ocidente. "O desenho foi adaptado para o gosto de nossas crianças", afirma. Entenda-se por isso adaptado para incentivar ainda mais o consumo. Grossfeld confirma que o segundo filme da série, "Revelation"", já está em cartaz no Japão e também foi comprado, agora pagando mais caro, para distribuição no Ocidente. O terceiro, Lord of the Unknown Tower, está em produção, com estréia prevista para junho. E também terá versão ocidental distribuída pela Warner.