Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Londrina
Especial para a Folha 2
Pobre como entretenimento, violento e dúbio, o filme estréia hoje em 300 salas brasileiras já como campeão antecipado de vendas de ingressos e acessórios
Não leva sorte mesmo, o bom cinema brasileiro pensado e realizado com carinho e sacrifício para o público infantil. Quando todos esperavam que o recém-lançado ‘‘Castelo Rá-Tim-Bum’’ iria saborear com certo conforto a merecida conquista do espaço das férias, o elogiadíssimo filme de Cao Hamburger bate de frente com esta locomotiva ensandecida chamada ‘‘Pokémon’’, uma espécie de Átila da animação: por onde passa, o resultado é desastroso para a concorrência, qualquer concorrência, já que o desenho acaba desviando também platéias adultas (leia-se pais) de outros títulos.
A partir de hoje, o video-game criado no Japão em 1995 por Satoshi Tajiri e promovido à tela grande nos EUA em 99, está entrando no maior circuito já fechado no Brasil para um cartoon de longa metragem, batendo a última liderança, em poder da Disney com ‘‘O Rei Leão’’. São 300 salas espalhadas pelo território nacional, 13 no Paraná - 6 em Curitiba, 3 em Londrina, 3 em Maringá e uma em Apucarana (confira os locais e horários na programação de cinema). E este número, assombroso para um país que tem apenas cerca de mil e quinhentos cinemas, não passa de 10 por cento do total de salas que exibiram o filme nos Estados Unidos, a partir de 10 de novembro do ano passado. Lá, a receita até agora, decorridas 8 semanas da estréia, chegou a 84 milhões de dólares. Quantia irrisória, se a balança comercial da trade mark receber de uma só vez o impacto consumista de mais de uma centena de produtos, subprodutos, bugigangas e penduricalhos que engordaram Natal e Ano Novo dos lojistas americanos.
Que os japoneses trataram sempre com muito zelo a ficção-científica cinematográfica com formatação monstruosa, ninguém têm dúvida. Em parte herança do imaginário oriental povoado por lendas da literatura fantástica, em parte assombroso legado do desastre nuclear de 45, o fato é que alguns seres como Godzilla, Mothra e Kitaro viraram cult também no Ocidente. Agora, não satisfeitos com a galeria, criaram 151 novos logo de uma vez. Não monstros gigantescos como os antepassados, mas ‘‘POCKEt MONsters’’(daí o título, ‘‘Pokémon’’) ou monstros de bolso, reduzidos no tamanho mas terríveis nos poderes quando transformados em algo mais.
‘‘Pokémon’’, que traz o alarmante subtítulo ‘‘O Primeiro Filme’’, apresenta um extenso elenco de criaturas animadas, com certeza familiares para as legiões de pequenos fãs que sabem tudo de todos em todas as etapas - do video game lançado há cinco anos pela Nintendo (e para onde na maioria são canalizados os royalties gerados pelo arrastão pokemônico) até as figurinhas, passando pelo desenho animado televisivo de todos os dias e pela vitrine de ofertas nas boas casas do ramo. Nesta versão para a tela grande, dirigida no Japão por Kunihiko Yuyama e ‘‘americanizada’’ por Michael Haigney e pelo produtor Normam Grossfeld, o argumento à beira da desconexão coloca Ash Ketchum no centro de uma missão para tornar-se o maior treinador de Pokémons do mundo. Com ele está o ídolo máximo dos milhões de admiradores, o Pokémon Pikachu - uma pequena criatura amarela que mais parece um rato eletrificado. Juntos seguem para uma ilha misteriosa onde encontram Mewtwo, uma atormentada espécie de gato clonado e identificado como o mais poderoso dos Pokémons.
Para os não iniciados, Pokémons são criaturas treinadas por seus donos humanos para serem as mais evoluídas do universo. A principal característica da evolução parece ser o combate entre Pokémons, exatamente para provar o quanto eles evoluiram...Alguém já observou que tudo isto é uma admirável expressão de valores japoneses, como trabalho em equipe, lealdade e desprendimento. Mas se ‘‘Pokémon’’ indica alguma coisa, o filme é apenas uma desculpa para conduzir seus personagens de uma cena de luta à outra.
O estilo visual é frouxo como na maioria dos desenhos japoneses. E o que se diz e transmite às platéias mirins é tão dúbio e insidioso quanto alguns dos monstrinhos. Eles não podem ser mortos, apenas feridos. São invulneráveis. Por que? Há uma inquestionável violência veiculada; a que propósito serve? Essas e outras questões alugam a atenção dos adultos acompanhantes, enquanto os menores apenas deixam-se levar pela redemoinho de sons-canções, cores e movimentos, consumindo uma ficção feita de estímulos no mínimo duvidosos.